O que fazer agora?

Horas plenas, muitas horas só para mim.

E a fantasia não vem, estou pau e pedra, terra bruta.

Tomo um café do bom, bebo coca-cola, abraço meu cachorro, suspiro dedilhando sobre o teclado do computador; enfim, aguardo uma luz…

“Ora, deixa disso menina” – eu mesma me animo.

E começo a trabalhar nas revisões, já que estou tão sóbria hoje!

Revisão do carro

Tosco!

Nada define melhor o indivíduo que me atendeu quando fui levar meu carro para a revisão.

Mal olhou para mim; terminava uns papéis de outro cliente e quando se dignou e viu que eu era uma fêmea, suspirou resignado. Ossos do ofício… 

Por fim perguntou se o dono do carro tinha deixado alguma recomendação, então peguei minha listinha na bolsa. (O carro está no nome do Miguel, mas sou eu quem usa e não queria esquecer detalhes).

É evidente que não sei o nome da peça quadrada que compõe a lataria logo acima do estribo do lado esquerdo e atrás. Sinto muitíssimo, Kleber, não sei… – retruquei conferindo seu nome no crachá do bolso.

Fomos até lá; e eu explicava, e ele fazia um bico e meneava a cabeça como quem não está enxergando o problema, como se eu fosse uma neurótica alucinada na porta de um pronto socorro.

Foi devastador.

Depois que conferiu a infiltração que eu afirmei que ocorre quando há chuva forte – hoje está um dia de sol pleno – me perguntou três vezes se eu havia trocado o para-brisas e eu três vezes respondi que não havia trocado nada; depois que testou a tecla um do display do rádio e o CD não se manifestou como eu disse que faria e ele me olhou como se eu fosse louca ou quisesse atenção; finalmente pegou meu chaveiro, devolveu tudo que não era a chave do carro e me entregou um papel para assinar, concordando com tudo que seria feito.

Li de cabo a rabo. Com ares de entendida, reclamei aqui e ali das anotações que ele tinha feito. E ele continuava a  me esnobar.

Agradeci, pedi que ligasse diretamente para o proprietário do carro para informar o orçamento e saí à procura de um táxi.

– Pela praia, por favor – eu disse ao taxista e me afundei no banco a olhar o mar, que pelo menos naquela hora mostrava-se muito mais amistoso!

Ah, os hormônios…

A propósito da cirurgia realizada em Angelina Jolie, para diminuir sua alta probabilidade de desenvolver câncer de mama e ovários, também considero sua atitude corajosa e proativa. Que tristeza pensar que eventualmente deverá fazer ooforectomia e não fará reposição hormonal, pelo menos é assim que entendo agora. Com tantas novidades na medicina, talvez haja uma forma alternativa de evitar a castração e a inevitável perda de viço e juventude.

Hormônio – demônio do bem, anjo do mal. Ligado às mais diversas expressões do corpo; e alento da alma; vício para alguns, complexo para outros, sua falta ou excesso governam nossa vida. Temos que nos adaptar e conviver conforme o nosso destino.

Por outro lado, muito se fala sobre os benefícios da castração dos animais. Nos machos, diminui a agressividade, tornando-os mais tolerantes; e se são os gatos, evita, na maioria das vezes, que marquem com borrifos de urina nosso sofá preferido.

Nas fêmeas que não forem reproduzir, é melhor que sejam logo castradas, assim que atingem a maturidade sexual, por volta dos seis meses, evitando cios prolongados e sofridos – ah, os hormônios e as TPMs; e os tumores de mama tão comuns nesses animais.

Enfim, penso na ironia da natureza por nos mostrar a beleza de Angelina ser melindrada por opção dela, que se permitiu desta forma ficar o máximo possível com seus filhotes, e eventualmente viver mais tempo do que estaria destinada com tal herança.

Lembro-me de precisar decidir sobre a castração do meu rottweiler, única esperança para controlar sua agressividade por dominância – com outros cães e pessoas desconhecidas. Passei semanas insone; seria mesmo necessário? Um cachorro tão bonito ser castrado? Ter a pelagem fosca, engordar e tornar-se menos imponente, menos masculino?

Meus colegas veterinários diziam:

– Ele nem vai saber o que aconteceu, apenas ficará mais calmo.

– Mas eu gostaria tanto de ter filhotes dele…

– Sim, mas se ele cruzar…

Liguei o piloto automático, marquei a cirurgia, preparei o espírito do Miguel e fui em frente.

Estive por perto durante o procedimento. Vi o pobre lá, entregue aos efeitos dos anestésicos, ferido em sua masculinidade, e torci para encontrar em seus testículos – absolutamente saudáveis – algum nódulo, alguma irregularidade que justificasse a judiação. Nada!

Ele recuperou-se da cirurgia, e logo estava brincando, alegre com a vida, marcando seus territórios e absolutamente – dominante.  

Sua consciência, seu cérebro, suas células, já haviam assimilado o poder da testosterona.

É um macho alfa… Castrado.

Bravo, e gordo – não fazemos mais nossas corridas diárias pelo condomínio – continua sendo meu animal querido. Nem sempre a gente ganha a batalha.

Bom, pelo menos, estou certa de que ele jamais terá um tumor gonadal.

A pasta de dentes!

Todo mundo sabe!

Pastas de dentes são indicadoras das relações. Em consultórios de terapia de casal, em textos a esmo pela vida, a forma de lidar com a pasta de dentes gera muitas horas de discussão e sofrimento.

Ele, o marido,  aperta o tubo de qualquer maneira e o desperdício é imenso. É preciso jogar fora  muito antes do fim, porque ele não tem o cuidado de apertar do fundo para a superfície.

Quanta bobagem, que diferença faz aquele tantinho de pasta que fica entre as dobras do tubo? Joguem logo fora e que venha o novo tubo!

Se ao menos não houvessem todas aquelas calcinhas penduradas no box!

Atualmente as pastas são mais democráticas. Não há como deixar pasta no tubo, porque eles são feitos de material plástico e apesar do esforço para apertar e conseguir alguma coisa, eles seguem invictos até o final do conteúdo.

Algums tem até as tampas presas ao tubo, para evitar que se percam.

Outra grande questão de antigamente: Aquela pasta meio dura e pegajosa que se fingia de tampa; era realmente abominável. 

Muitos casamentos naufragaram em função da pasta de dentes. Muitos outros ainda fracassam quando se observa que apesar de tudo o dentifrício é o menor dos problemas.

Bom para os terapeutas de casal que ainda terão que lidar com as calcinhas penduradas no box!

Se ao menos as cuecas, devidamente lavadas durante o banho,  também ornassem o box…

Que nada, vão para o cesto de roupas sujas, contaminar os sutiãs e as camisetas. Tomara que a máquina de lavar roupas tenha água quente e alguma tolerância à água sanitária.

Uma boa forma de abater as bactérias, espermatozoides  e a falta de amor dos casamentos.