Um peixe no meu jardim!

O Brasil em polvorosa, passeatas com e sem violência, e eu  preocupada com as pessoas queridas que vão à luta. Peço que se cuidem, que tomem muito cuidado, que não se percam nos ideais em detrimento das ideias. Vou dormir assustada, a toda hora acordo e me pergunto onde será a festa, onde será o entrevero. 

Acordo de ressaca, noites de insônia e preocupação. 

O que será de nós? O que será dela, dele, de mim?

Depois do café da manhã, protegida entre minhas paredes, observo o jardim para conferir sua verdura e vejo um brilho de escamas. Devo estar sonhando. Pisquei e olhei novamente e lá estava: Um peixe! De uns oito cm de comprimento,  da cabeça – que ele não tinha – ao rabo.

Minha casa fica a uns dois quilômetros da praia…

Sr. Antônio explicou: 

– São as gaivotas. Vem trazendo no bico, comida para os filhotes e às vezes perdem a carga.

Achei o máximo! Melhor que os pais possam levar aos filhos seus alimentos.

Melhor que os filhos não precisem sair às ruas a protestar por um mundo melhor e admirável.

 

Um homem bom

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Chega de madrugada e brinca com o cachorro como se os dois fossem gente, ou dependendo do humor, como se os dois fossem bichos. Saem para passear cedinho, são os donos da rua e do amanhecer. E na volta deitam-se na ardósia fria, lado a lado e descansam.

Trabalha obstinadamente dez horas por dia no jardim, no telhado, no terraço; e se dispõe a resolver os problemas de manutenção que toda casa demanda. Nos dias de sol ou de chuva pesada posso vê-lo impassível lidar na terra e conversar com as plantas; acho que ele pensa alto, uma vez que a solidão é sua companheira de décadas. 

É possessivo e teimoso mas, gosta de verdade da gente. Ainda chama Helena de “a menina”.

Ao fim do dia vem se despedir e desenrola um dedo de prosa, fala do sítio quase pronto, dos bichos que cuida ou cuidou, dos outros patrões… E termina dizendo:

– Bom final de semana a todos!

Deus conserve e abençoe essa criatura do bem! 

 

 

Um casal “da hora”

Gosto das pessoas que continuam. Admiro todas aquelas que passam por experiências difíceis, sejam financeiras ou profissionais, sejam as perdas ou as separações forçadas. 

Seus dias não são batalhas a serem vencidas, são investimentos, contam pontos na soma do final do mês. Não, não estou falando de dinheiro; quero falar de enfrentar seus desafios sem correr da raia, viver de longe seus amores sem desanimar, porque compreendem que tudo é temporário e mesmo que o passageiro seja por anos, não desistem.

Têm um bem a construir, meninos para verem criados e satisfeitos. Ensinam, explicam, conversam, discutem. E assim, mesmo a família dividida pelas distâncias, são tão amigos, tão unidos e tão próximos que merecem o respeito de toda a gente.

Sei que choram. Mas de saudade. Dão risadas também. O riso e o choro se misturam lá no fundo e o que aparece para nós é uma serenidade firme, uma confiança mútua e muito amor.

Gosto mesmo das pessoas que continuam.

Despertar

Às seis horas em ponto o alarme soou. Ele bateu a mão para interromper o ruído e não acordar a companheira. Levantou-se e foi tomar banho. Dez minutos depois o alarme voltou a soar, ele havia acidentalmente apertado o botão da soneca.  

A moça morta de sono enfiou a cabeça no travesseiro, mas havia despertado. Irritada deitou atravessada na cama e tentou alcançar o rádio relógio. Bateu a mão de qualquer jeito e uma emissora sintonizada começou a falar alto alertando os dorminhocos que já era hora. 

Ela se debateu na cama e tentou alcançar algum outro botão, era péssima com aparelhos em geral e de olhos fechados então…

Conseguiu aumentar o volume, depois mudou de rádio, depois nova rádio e desta vez era uma evangélica. O pastor gritava ao seu deus e  atiçava os fiéis da manhã com salmos e hinos.

Ela desistiu de tentar. Suspirou, fez um sanduíche com os dois travesseiros,  a cabeça como recheio e esperou pelo parceiro.

Algum tempo depois, muitos salmos após, o marido chegou diligente e perfumado e desligou o rádio.

E ela agradecida, exclamou:

– Aleluia, irmão!