Avareza

Os brinquedos… Havia tantos… Só os trenzinhos – sua paixão –  tinha mais de 20. Brincava horas com as locomotivas e seus vagões; e inventava transportes de vacas para o abatedouro e na volta caçambas cheias de pedras preciosas. As vacas eram feitas de peças de lego que desmontadas viravam diamantes. (O melhor de ser criativo é isso. Cada um inventa seu mundo, cada um é o deus de seu mundo, pode fazer e desfazer ao seu desejo).

Quando um amigo vinha brincar ele vigiava, com olhos gulosos, cada movimento: – Não vá quebrar meu carrinho, cuidado com o meu dragão.

Num dia assim, quando a mãe chegou depois que uma epopeia infantil havia terminado, decidiu que era hora de George aprender o desapego. Disse ao filho que a partir de então a cada presente que ganhasse deveria doar algum mais velho, que não usasse mais. Era um grande dilema para o menininho, porque sempre que escolhia um brinquedo para doar, descobria novas utilidades para ele, tornava-se inusitado e novo, encontrava novas maneiras de brincar.

Finalmente descobriu dentro do baú, um boneco que perdera uma perna. Quero dizer, a perna estava lá, mas não havia como prendê-la ao corpo. Decidiu que daria o boneco, mas que ficaria com a perna, agora inútil, de lembrança. A mãe foi irredutível.

– A perna também vai para doação!

Toda aquela dor para ter direito a um uniforme do Lanterna Verde. Estavam saindo da loja quando viu os novos tênis com luzes que piscavam sempre que o calcanhar tocava o chão. Seus olhinhos brilharam e George olhou suplicante para a mãe que comentou:

– Você conhece as regras!

O menino decidiu-se pelo uniforme.

No dia seguinte foi a mãe que se surpreendeu chorando sozinha, incapaz ela própria de lidar com a frustração do filhote.

Luxúria

A primeira vez que ele surpreendeu foi quando sua mãe lhe trocava a fralda e subitamente sentiu o fluxo de urina sobre o rosto. Era tão nova aquela criança e já expressava seu ser masculino.  Na  natureza feminina da mãe, aliás, de todas as mães,  não há dessas surpresas.

Lá pelos oito anos, acontecia de ver na TV aquelas moças bonitas, nuazinhas,  rebolando nos programas de auditório e ele sentia uma comichão engraçada e via seu brinquedo espreguiçar-se e crescer. Ele achava gostoso e bolinava um pouco, distraído, até que dona Docinha aparecia e estragava tudo: – George, quer fazer xixi?

Gula

Ainda esfregava os olhos  da  mágoa, quando cheirou o ar e se levantou de súbito e foi até a cozinha, porque ouvira o frigir das batatas; que delícia.  Caminhou como um sonâmbulo ou um soldado de chumbo  de habilidoso  titereiro.  Desanuviaram-se as pregas do rosto e agora era novamente  menino animado,  altivo, ativo,  se é que poderíamos chamar de ativo quem  olha parado à porta da cozinha, com bugalhos ansiosos e  expectantes, e o pavor do fogo e da gordura quente, quente.

George observou Dona Docinha retirar com a espumadeira um bocado das batatas, que colocou em um prato forrado de papel absorvente sobre a mesa da cozinha e avisou que esperasse um pouco porque estava muito quente. Ele sentou-se de banda no banquinho e balançava a perna que não alcançava o chão, a boca rosada e festiva, a antecipar o prazer das batatas. A babá trouxe  o sal num saleiro de plástico que a criança tomou de sua mão e espalhou vivamente sobre o alimento dourado e crocante. Depois testou com os dedos e em seguida com a língua, se já podia arriscar uma mordida.  Aproximou de si um prato vazio, onde espalhou  grosseiramente o ketchup, e deu de ombros quando um tanto respingou na toalha branca que cobria a  mesinha. Pegou uma batata dourada estalando de sabores, molhou  no vermelho cremoso e fechou os olhos para degustar a iguaria com o prazer que adivinhava. Depois que engolia uma,  partia para nova batata, que escolhia com os dedos em pinça e os olhos agudos,  mergulhava  no molho e  mastigava, agora com os olhos fechados; e assim por diante até o fim das batatas e do ketchup que ele lambeu do prato.

Terminou o lanche, limpou a boca e os dedos e voltou para a sala. Com muita energia trotou em volta da mesa da sala de jantar com seu cavalo imaginário e continuou no galope até que tropeçou no carpete e foi novamente ao chão, abrindo o maior berreiro.  A babá já vinha correndo acudi-lo

Preguiça

Talvez ele tenha esparramado o suco sobre a mesa de propósito, porque chegara ao limite de sua capacidade de concentração e expectativa;  Dona Docinha limpava a janela e não olhava para ele; ou fazia de conta que não olhava para aproveitar com gozo a reação do piazito.  Ele tinha o rosto vermelho e as bochechas rosadas e gordas saltavam à frente dos olhos doces e claros enfezados agora  que lhe traíam os gostos. Pois bem, se não gostava de suco de laranja em um dia, porque oferecer-lhe novamente ao dia seguinte? Sua cabecinha fazia as contas e se balançava em uma negativa veemente sobre o pescoço frágil. Depois de derrubar o copo, felizmente de plástico inquebrável, ele deitou-se de lado sobre o carpete,  os joelhos dobrados e cofiava os cachos enquanto decidia se responderia ou não ao chamado da babá. Por ele ficaria ali emburrado até a mãe voltar. É que além do suco, havia outras atividades da sua rotina que preferia rejeitar ou fazia de mal grado. Tão pequeno, seis, sete anos e já conhecia a preguiça. As lições e o banho, muito mais que o suco, tomavam conta de duas das preciosas horas da manhã, e ele teria preferido estar em férias, pelo menos em relação às lições porque o banho era obrigatório sempre, mesmo que se sentisse limpíssimo.

Um Papa argentino, no Rio

Estou com medo…

É só isso: medo.

O Papa virá e nós nos viraremos…

Aqui dentro toca um alarme: – Pára tudo! Pára!

Não… nada disso… ele vem e nós iremos… maquiados e rebeldes confrontaremos. 

A dúvida, a dívida e o anonimato.

E que Francisco, bem-vindo e mágico, nos abençoe!

Tempo

Quando temos consciência da passagem do tempo? Nas fotos de aniversário? No número de velinhas a serem apagadas, todas de uma vez?  Talvez a consciência não seja plena, a não ser ali pelos oito anos, quando uma comemoração, por exemplo, só com o pai e a mãe, tem gosto de brigadeiro.

Cada um se lembra de mais de alguma data, tenho certeza. Acho que é naquele momento mágico que a plena consciência se faz ouvir, feito o grilo falante.

Daquela data jamais esqueceremos. 

É a partir dela que começamos a olhar para trás e ver, timidamente, que éramos melhores do que supúnhamos, éramos mais ordeiros, mais delicados e infinitamente mais vulneráveis.

Depois disso é olhar para trás e comparar:

Nunca gostei de mim aos doze, mas estava bem mais nova que agora. Nesta foto – quanta surpresa – estou feliz, bem mais feliz que agora…

É por isso que o advento das fotografias mudou a visão de mundo. Podemos recordar mais facilmente de como estivemos, como fomos, como éramos, e então reparar que fôramos bem melhores, bem mais divertidos e talvez mais completos do que nunca, da energia de viver.

Insônia

A patroa dormia todas as tardes, profundamente. O quarto a meia luz, ar condicionado ligado, cobertores; e a dona ressonando.

Antes ela dizia:

– Penha, não estou para ninguém, avise que saí e sem o celular…

A Penha estranhava, mas obedecia. Sabia que a patroa tomava  remédio controlado, com nome esquisito “alguma coisa pran”…

Um dia resolveu experimentar; e levou uma cartela, das muitas que havia na gaveta.

À noite tomou só uma pontinha do comprimido, que mordeu apreensiva.

Deitada esperava o sono e imaginava que deveria ser bom, afinal tanta gente usava…

Acordou às seis horas, atrasada e nem se lembrava de quando havia dormido. Um apagão!

Sentia-se bem, mas concluiu que aquilo não era pra ela. Então guardou os comprimidos no fundo da última gaveta do armário e não pensou mais no assunto.

Depois de uns meses, encontrou  a Ritinha no ponto de ônibus. Assustou-se com o olhar da amiga, que parecia um zumbi. Conversa que vai e vem, descobriu que a pobre Ritinha não dormia havia mais de uma semana, sobressaltos constantes depois que perdera o namorado e a ajuda de custo.

A Penha lembrou-se do remédio da patroa e falou com a Ritinha que iria visitá-la no fim de semana, talvez tivesse a solução para o problema.

No sábado estava lá para um café. Explicou que a patroa tomava direto e que só poderia fazer bem, ainda mais a ela, a Rita, que tinha panca de grã-fina.

Ritinha aceitou o agrado, mas estava contrariada.

– E se eu tiver um piti?

– Vá para o pronto-socorro – disse a amiga.

Depois de muita prosa, a Rita agradeceu, a Penha foi embora e a vida voltou ao normal com seu farfalhar de folhas secas e os gritos dos bem-te-vis.

Depois de umas semanas encontraram-se de novo no ponto.

A Rita explicou que tomara o remédio e ficara mais acordada do que nunca, zumbizou pela casa durante toda a madrugada e precisou faltar ao trabalho. Perguntou:

– Era mesmo remédio para dormir?

– Bom, a patroa dorme pra caramba, a tarde inteira.

– Eu fiquei estatelada, achei que nunca mais fosse dormir, que iria morrer seca e insone, Deus me livre.

Quando  a Penha foi tomar café com a Ritinha novamente, descobriram:

O remédio estava vencido havia muitos meses.