Insônia

A patroa dormia todas as tardes, profundamente. O quarto a meia luz, ar condicionado ligado, cobertores; e a dona ressonando.

Antes ela dizia:

– Penha, não estou para ninguém, avise que saí e sem o celular…

A Penha estranhava, mas obedecia. Sabia que a patroa tomava  remédio controlado, com nome esquisito “alguma coisa pran”…

Um dia resolveu experimentar; e levou uma cartela, das muitas que havia na gaveta.

À noite tomou só uma pontinha do comprimido, que mordeu apreensiva.

Deitada esperava o sono e imaginava que deveria ser bom, afinal tanta gente usava…

Acordou às seis horas, atrasada e nem se lembrava de quando havia dormido. Um apagão!

Sentia-se bem, mas concluiu que aquilo não era pra ela. Então guardou os comprimidos no fundo da última gaveta do armário e não pensou mais no assunto.

Depois de uns meses, encontrou  a Ritinha no ponto de ônibus. Assustou-se com o olhar da amiga, que parecia um zumbi. Conversa que vai e vem, descobriu que a pobre Ritinha não dormia havia mais de uma semana, sobressaltos constantes depois que perdera o namorado e a ajuda de custo.

A Penha lembrou-se do remédio da patroa e falou com a Ritinha que iria visitá-la no fim de semana, talvez tivesse a solução para o problema.

No sábado estava lá para um café. Explicou que a patroa tomava direto e que só poderia fazer bem, ainda mais a ela, a Rita, que tinha panca de grã-fina.

Ritinha aceitou o agrado, mas estava contrariada.

– E se eu tiver um piti?

– Vá para o pronto-socorro – disse a amiga.

Depois de muita prosa, a Rita agradeceu, a Penha foi embora e a vida voltou ao normal com seu farfalhar de folhas secas e os gritos dos bem-te-vis.

Depois de umas semanas encontraram-se de novo no ponto.

A Rita explicou que tomara o remédio e ficara mais acordada do que nunca, zumbizou pela casa durante toda a madrugada e precisou faltar ao trabalho. Perguntou:

– Era mesmo remédio para dormir?

– Bom, a patroa dorme pra caramba, a tarde inteira.

– Eu fiquei estatelada, achei que nunca mais fosse dormir, que iria morrer seca e insone, Deus me livre.

Quando  a Penha foi tomar café com a Ritinha novamente, descobriram:

O remédio estava vencido havia muitos meses.

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