Preguiça

Talvez ele tenha esparramado o suco sobre a mesa de propósito, porque chegara ao limite de sua capacidade de concentração e expectativa;  Dona Docinha limpava a janela e não olhava para ele; ou fazia de conta que não olhava para aproveitar com gozo a reação do piazito.  Ele tinha o rosto vermelho e as bochechas rosadas e gordas saltavam à frente dos olhos doces e claros enfezados agora  que lhe traíam os gostos. Pois bem, se não gostava de suco de laranja em um dia, porque oferecer-lhe novamente ao dia seguinte? Sua cabecinha fazia as contas e se balançava em uma negativa veemente sobre o pescoço frágil. Depois de derrubar o copo, felizmente de plástico inquebrável, ele deitou-se de lado sobre o carpete,  os joelhos dobrados e cofiava os cachos enquanto decidia se responderia ou não ao chamado da babá. Por ele ficaria ali emburrado até a mãe voltar. É que além do suco, havia outras atividades da sua rotina que preferia rejeitar ou fazia de mal grado. Tão pequeno, seis, sete anos e já conhecia a preguiça. As lições e o banho, muito mais que o suco, tomavam conta de duas das preciosas horas da manhã, e ele teria preferido estar em férias, pelo menos em relação às lições porque o banho era obrigatório sempre, mesmo que se sentisse limpíssimo.

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