Um elefante branco

Temos uma Ford Explorer ano 1995 parada aqui em frente de casa. Compramos estalando de nova e saímos da concessionária, direto para buscar Helena no colégio Palmares em São Paulo. Chamaram-na pelo microfone e quando saiu à rua, ficou um tanto perdida procurando,  por não reconhecer o carro. Fui buscá-la  pela mão e achei graça de seu espanto com aquele elefante “azul esferográfica”. Precisei ajudá-la a subir porque era muito pequena ainda para a altura do estribo. Depois cresceu e se adaptou, chegou a dirigi-lo algumas vezes.

Já trocamos nossos carros, mas ainda não conseguimos passar adiante a camionete, por uma questão de amor à ela e a nossa historia.

 Na semana passada, enquanto caminhava pelo condomínio em meu trajeto habitual,  o jardineiro de uma casa da rua paralela a minha perguntou se eu não queria vender meu carro velho. Um amigo dele tinha uma oficina e estava interessado.  Disse que levasse o mecânico lá para  avaliar e ver se entrávamos em um acordo.  Ele ainda perguntou: – Está estacionado em frente a sua casa, não é?   Concordei e combinamos para daí a dois dias; portanto hoje pela manhã.

Saí para caminhar e fiz um trajeto diferente, evitei passar pela rua onde ele trabalha porque queria terminar meu exercício antes de lidar com “negócios”.

Quando vi, lá estava ele com o amigo diante de um carro estropiado e abandonado na rua acima da que eu moro!

– Viemos ver o carro! – ele exclamou muito alegre. Já havia tocado a campainha e o morador dissera que não sabia de nada, que não queria vender nada. E ele resolveu esperar por mim, justamente por saber que tenho hábitos regulares. ( Isso dá um medo…)

Ficamos os dois decepcionados. Ele porque não era meu o carro que ele queria comprar. Eu porque fui interrompida em minha rotina…

Retomei a caminhada – até arrisquei uns piques – enquanto refletia contrariada,  porque um morador do condomínio deixava estar um carro velho e inútil parado por mais de dois anos em frente da própria casa.

 

Peso pesado

Ontem, subi na balança. Estarrecida, pensei – Maldita, o que você tem contra mim?

Desci, a balança zerou – não era mesmo um erro de calibragem.

Fui caminhar pesada. E lembrei-me de uma história que minha irmã me contou faz tempo.

Ela estava na farmácia e enquanto aguardava ser atendida, observava uma mulher de meia idade – como sou – subir na poderosa balança do estabelecimento. Como não ficou muito satisfeita, desceu e subiu mais duas vezes.

Tirou o lenço muito florido que adornava seu pescoço e colocou sobre o balcão onde já estavam amontoados sua bolsa, o casaco e o guarda-chuva. (Foi em São Paulo, claro).

Balançou a cabeça, desceu e cuidadosamente tirou o cinto com uma bela fivela – sim, aquilo deveria pesar pelo menos meio quilo, pensou. Quase nada mudou.

Desta vez tirou os sapatos e subiu determinada. Um triste resultado. Mas, subir e descer da balança não deixa de ser uma forma de se exercitar, não é?

Falando em exercício, voltei da caminhada e vim fazer o que gosto. Balança agora só amanhã, só de calcinha, depois do xixi e antes do café, quando certamente estarei pesando o mínimo possível.

A picanha!

Era o almoço de domingo. Todos à mesa.

No cardápio:

Picanha, farofa com bacon e ovos, arroz branco, feijão preto, uma bela salada de maionese, mandioca frita.

Os três meninos  aguardavam  a mãe fatiar a picanha, que cheirava e deixava a todos com água na boca.  O marido que se instalara na cabeceira da mesa olhava embriagado.

Não se rezava naquela casa, mas o silêncio enternecido dos presentes soava como uma prece.

A mãe partia agora as últimas fatias da picanha. Sabia que comeriam tudo, como estava apetitosa!

Então aconteceu: a travessa de Duralex que comportava a carne partiu-se em centenas de pedaços quadradinhos e muitos outros cacos minúsculos e afiados. Toda a mesa ficou talhada de vidro.

Depois do susto inicial e da evidencia de que pelo menos dois braços haviam sido atingidos por estilhaços quentíssimos, tentaram administrar o prejuízo:

– Não, mãe, a picanha não, a gente tira os pedaços de vidro.

– Olha só, as fatias do meio nem tem cacos!.

– A farofa está toda perdida…

– E o arroz? Dá pra comer o arroz?

Foi quando a mãe decidiu. Pegou um saco de lixo de 100 l e jogou lá dentro toda aquela maravilhosa comida temperada de cristais, sob o olhar revoltado da família. Amarrou bem e depois pediu ao marido que jogasse o saco com o almoço dentro na lixeira do lado de fora da casa.

Enquanto isso fritou uma prosaica linguiça que logo depois todos comeram com pão, calados e desiludidos.

O molho de chaves

Depois do almoço, a patroa, de origem  espanhola, fazia a sesta. Durante uma ou duas horas ficava incomunicável. Janelas veladas, portas fechadas, telefone e celular desligados. A sesta era sagrada. E ainda é pelo menos na Península Ibérica; o comércio fecha para reabrir mais tarde, as cidades dormentes e cálidas repousam. Bom, mas esta já é outra história.

Enquanto a madame dormia, Mariane limpava o fogão, varria a cozinha e levava o lixo lá fora. O portão deveria ser fechado enquanto estivesse na rua, para evitar que o cão de guarda fugisse e fizesse um estrago em alguma canela desavisada.

Naquela tarde quente, silenciosa, até os passarinhos cochilavam, quando ela, ao voltar para abrir o portão, gelou! “A chave, onde está a chave!” Mariane havia tirado o avental com o molho no bolso antes de sair com o lixo, na expectativa de encontrar o Antônio, caseiro do vizinho. Desesperou-se:

–  Ai, meu Deus, a água do café no fogo! O quê que eu faço meu Deus! – gemia com as mãos na cabeça quente.

Resoluta, apertou o botão, não ia atear fogo na casa. A princípio titubeante, tocava destocando, mas depois de quinze minutos espalmou a mão sobre a campainha e deixou o peso do próprio corpo manter o tônus. Lá de fora ela ouvia o som da campainha, inclemente. Madame não acordava! Aquele digestivo de jenipapo tornava profundo o repouso.

Então o Antônio apareceu, Mariane chorava:

– Vai pegar fogo, a água já evaporou, vou perder meu emprego. – Com todo aquele alvoroço o cão começou a latir forte e constantemente. Nem assim!

Antônio foi buscar uma escada, que apoiou no muro alto. Mariane subiu tremendo e já encarapitada no beiral viu o Nero que de cenho e beiços franzidos bufava muito irritado.

Tratou de falar com ele, não fosse o bicho estranhá-la depois de tantos anos de casa. Ele era um filhote quando ela começou a trabalhar ali.

Engatinhou até o canto do terreno onde havia um abrigo para ferramentas de jardim, com telhado a um metro do chão. Então pode pular e correu para a cozinha. A chaleira estava preta e seca. Nem um pingo d’água.

Do quarto, silêncio sepulcral.

Mariane suspirou, ariou a chaleira enquanto fervia outra água, fez o café, guardou tudo, tomou banho, pegou o dinheiro da passagem de ônibus e foi-se embora, batendo o portão, desta vez com a chave na bolsa.

A tarde seguiu como se nada tivesse acontecido.

Uma vaca em minha sala!

Todo mundo conhece aquela história de um casal em crise no casamento. Conversando com o compadre – os dois fazendeiros e vizinhos, contou seus perrengues com a mulher: A Maria é muito enjoada, reclama de tudo e não me deixa em paz. Brigamos o tempo todo e não sei mais o que fazer…

O outro sugeriu:

– Faça o seguinte, coloque a Malhada presa dentro de sua sala por um mês; depois conversaremos.

Passado o mês o compadre perguntou:

– E aí? 

– Ai, meu Deus, que inferno virou minha vida, a vaca suja tudo, cheira mal, não posso fazer nada em casa, que desespero.

– Ok, compadre, agora tire a vaca da sala e daqui uns dez dias falamos.

Depois deste tempo, o amigo perguntou:

– E aí, como vai a vida com a Maria?

-Estou vivendo uma nova lua de mel, nunca fomos tão felizes, foi só tirar a vaca da sala!”

Contei tudo isso para poder dizer que tirei uma vaca da minha sala!

Andei tomando uma medicação para me ajudar – a ideia é essa, né? – mas sofri tanto com os efeitos colaterais que decidi parar, dois dias atrás. Hoje acordei ótima, cheia de energia!

Às vezes tudo tem que ficar pior, antes de melhorar.

Qual remédio? Não conto nem à paulada!