O molho de chaves

Depois do almoço, a patroa, de origem  espanhola, fazia a sesta. Durante uma ou duas horas ficava incomunicável. Janelas veladas, portas fechadas, telefone e celular desligados. A sesta era sagrada. E ainda é pelo menos na Península Ibérica; o comércio fecha para reabrir mais tarde, as cidades dormentes e cálidas repousam. Bom, mas esta já é outra história.

Enquanto a madame dormia, Mariane limpava o fogão, varria a cozinha e levava o lixo lá fora. O portão deveria ser fechado enquanto estivesse na rua, para evitar que o cão de guarda fugisse e fizesse um estrago em alguma canela desavisada.

Naquela tarde quente, silenciosa, até os passarinhos cochilavam, quando ela, ao voltar para abrir o portão, gelou! “A chave, onde está a chave!” Mariane havia tirado o avental com o molho no bolso antes de sair com o lixo, na expectativa de encontrar o Antônio, caseiro do vizinho. Desesperou-se:

–  Ai, meu Deus, a água do café no fogo! O quê que eu faço meu Deus! – gemia com as mãos na cabeça quente.

Resoluta, apertou o botão, não ia atear fogo na casa. A princípio titubeante, tocava destocando, mas depois de quinze minutos espalmou a mão sobre a campainha e deixou o peso do próprio corpo manter o tônus. Lá de fora ela ouvia o som da campainha, inclemente. Madame não acordava! Aquele digestivo de jenipapo tornava profundo o repouso.

Então o Antônio apareceu, Mariane chorava:

– Vai pegar fogo, a água já evaporou, vou perder meu emprego. – Com todo aquele alvoroço o cão começou a latir forte e constantemente. Nem assim!

Antônio foi buscar uma escada, que apoiou no muro alto. Mariane subiu tremendo e já encarapitada no beiral viu o Nero que de cenho e beiços franzidos bufava muito irritado.

Tratou de falar com ele, não fosse o bicho estranhá-la depois de tantos anos de casa. Ele era um filhote quando ela começou a trabalhar ali.

Engatinhou até o canto do terreno onde havia um abrigo para ferramentas de jardim, com telhado a um metro do chão. Então pode pular e correu para a cozinha. A chaleira estava preta e seca. Nem um pingo d’água.

Do quarto, silêncio sepulcral.

Mariane suspirou, ariou a chaleira enquanto fervia outra água, fez o café, guardou tudo, tomou banho, pegou o dinheiro da passagem de ônibus e foi-se embora, batendo o portão, desta vez com a chave na bolsa.

A tarde seguiu como se nada tivesse acontecido.

3 comentários sobre “O molho de chaves

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