A picanha!

Era o almoço de domingo. Todos à mesa.

No cardápio:

Picanha, farofa com bacon e ovos, arroz branco, feijão preto, uma bela salada de maionese, mandioca frita.

Os três meninos  aguardavam  a mãe fatiar a picanha, que cheirava e deixava a todos com água na boca.  O marido que se instalara na cabeceira da mesa olhava embriagado.

Não se rezava naquela casa, mas o silêncio enternecido dos presentes soava como uma prece.

A mãe partia agora as últimas fatias da picanha. Sabia que comeriam tudo, como estava apetitosa!

Então aconteceu: a travessa de Duralex que comportava a carne partiu-se em centenas de pedaços quadradinhos e muitos outros cacos minúsculos e afiados. Toda a mesa ficou talhada de vidro.

Depois do susto inicial e da evidencia de que pelo menos dois braços haviam sido atingidos por estilhaços quentíssimos, tentaram administrar o prejuízo:

– Não, mãe, a picanha não, a gente tira os pedaços de vidro.

– Olha só, as fatias do meio nem tem cacos!.

– A farofa está toda perdida…

– E o arroz? Dá pra comer o arroz?

Foi quando a mãe decidiu. Pegou um saco de lixo de 100 l e jogou lá dentro toda aquela maravilhosa comida temperada de cristais, sob o olhar revoltado da família. Amarrou bem e depois pediu ao marido que jogasse o saco com o almoço dentro na lixeira do lado de fora da casa.

Enquanto isso fritou uma prosaica linguiça que logo depois todos comeram com pão, calados e desiludidos.

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