A janela

Abriu a porta do apartamento e entrou resoluta. Na sala estavam os móveis velhos, as almofadas soltas sobre o carpete, o vaso  de bonsai destruído. Tudo igual.

No quarto, os lençóis fuxicados sobre a cama desfeita. As gavetas do guarda roupas deixavam ver umas pontas de tecido, mordiscadas pela madeira.

Foi em busca do cofre improvisado no fundo da última gaveta da direita.

Pegou os papéis e analisou os documentos da escritura do apartamento, aquele que, tinha certeza, havia comprado, décadas antes. Sabia que possuía mais do que parecia. Precisava ir atrás do que tinha, não haveria de ser apenas desejo. 

Na sacada da área de serviço, vislumbrou os prédios onde havia construído seu nicho, os imóveis que estavam interditados… Teve um calafrio quando percebeu que as ruas tinham grosseiras depressões em muitos pontos; e os prédios apareciam em ruínas. Seu sonho, sua certeza acabavam ali.

– Não tenho amigos – pensou tristemente.

Então ouviu a campainha e foi abrir a porta de serviço. A vizinha do andar debaixo ouvira o barulho de seus movimentos e lhe trouxera um prato de cuscuz.

– Não é resto de comida, preparei um tanto a mais e separei especialmente para você.

Ela agradeceu confusa, fechou a porta e colocou o prato sobre a geladeira muda fazia mais de trinta anos.

Sentou-se no banco da cozinha e olhou  para a gaiola do canário Pascoal, que fugira quando ela esquecera a janelinha aberta.

Foi até a sala, que, sem cortinas, recebia a luz líquida, ácida. 

Abriu a janela de par em par e deixou entrar o vento e o barulho da avenida congestionada.

E esqueceu mais uma janela aberta. 

A esperança e o gato de Schrodinger estão dentro de minha caixa de Pandora. Não sei se minha esperança está viva ou morta.

Por isso mesmo deixo estar e fico a olhar a caixa, a limpar-lhe sujidades; e a coloco em uma redoma de vidro.

É uma outra forma de esperança. 

O sentido da fé

Não sou uma pessoa religiosa, mas tenho alguma fé. Fui criada dentro do catolicismo e até tive um período muito “carola” na adolescência. Depois fui cumprindo os rituais mais importantes, nos casamentos, velórios e batizados.

Confessar? Não, não mais… Tenho outros derivativos.

Minha fé é muito mais em mim mesma, naquilo que posso conseguir com esforço e pensamento positivo. Por isso, se não estou me sentindo útil, sofro.

Faz uns três anos que soube de uma novena  em que se reza sempre ás terças-feiras durante nove semanas, claro.

Mais que a realização dos pedidos, o ato de me preparar para rezar  e as rezas em si trazem-me uma paz infinita. A concentração nas palavras do Pai Nosso e da Ave-Maria, o desejo de cumprir essa tarefa deixam meu coração reconfortado.

Termino as nove semanas, consigo ou não as bênçãos; mas acima de tudo rezo com fervor e me acalmo.

Depois de umas semanas sem rezar começo a pensar na próxima novena, nas próximas graças que desejo alcançar, só pelo prazer. 

Prazer de rezar.

 

Um pito na primavera

Que história é essa, primavera de chegar assim ruidosa e ofegante?

Como pode desfolhar e destruir  as flores que acabou de produzir?

Essas nuvens pesadas, num sol de quase outubro não combinam, prima.

Acaso foi porque mandei cortar o coqueiro anão que porejava pulgões de seu miolo?

Ele estava morto, precisava ir.

Não desanima, prometo plantar de novo, no mesmo lugar, uma outra árvore, menos sensível às vicissitudes do clima e que, serena e florescente corresponda aos seus desejos de criar.

Exames de rotina

Abriu- se a porta de vidro fosco e uma moça chamou alto e claramente:

– Patrícia Bilharinho de Mendonça Rati!

Sou eu. Levantei aflita e segui atrás dela por um corredor muito limpo, de paredes amarelo clarinhas e chão impecável. O corredor dava acesso a outros corredores e a muitas portas de vestiários numerados – vi até o número dezessete. Estavam abertos com a chave na fechadura e um chaveiro enorme com o número do cubículo. Ou fechados sem a chave. Do lado de fora várias mulheres com um avental de algodão macio, em tons pastel aguardavam serem chamadas para os exames –  mamografia, ultrassonografia, densitometria. 

Entrei no meu cubículo tirei a roupa toda conforme orientação, vesti meu avental e fiquei do lado de fora esperando ser chamada. Disseram para esperar dentro do vestiário, mas quem aguenta?

Pelos corredores, moças muito atarefadas levavam prontuários, chamavam pessoas, davam instruções… E a gente esperando do lado de fora, pelada e de avental, umas olhando para as outras, na expectativa de fazer logo os exames e vestir a roupa, couraça que nos permitiria ir lá pra fora e voltar a ser normal.

Algumas tinham ego para reclamar que estavam passando outras na frente. Fiquei quieta esperando feito um cão que aguarda o dono, farejando e erguendo as orelhas a escutar:

Será que me chamaram e eu não ouvi?

Será que perderam meu prontuario?

A melhor parte foi vestir a roupa, devolver a chave com o chaveiro enorme de número 4 e ir lá pra fora pagar a conta e ser feliz outra vez.

 

Uma utopia

Estamos todos contaminados pelo medo de sermos mal atendidos nos hospitais públicos e também privados. Temos os médicos escravos, os médicos que escravizam, e aqueles que vão com a maré e tiram proveito de tudo. Mas há bons médicos também, mesmo na rede pública.

Tenho a felicidade de fazer parte do privilegiado grupo de pacientes, que pode escolher seu profissional e pagar por ele. E ainda tenho a facilidade de conseguir indicações precisas de colegas de primeiro escalão, por colegas de profissão.

Enquanto trabalhei com pacientes,  apesar de muito nova e cheia de dúvidas, fiz o possível para oferecer  o melhor atendimento humano e o maior conforto; e muitas vezes misturei o trabalho médico com a necessidade interior de ajudar pessoas .

Faz uns dias consultei uma médica que me tratou como se eu fosse única, alguém que me compreendeu me olhando nos olhos, que me examinou com mãos tão hábeis, sensíveis e leves que fiquei em dúvida se não seria um anjo.

Ela não era cubana, era mineira como eu sou, e nos entendemos perfeitamente.

Ela não era nova,  está no auge da profissão, e oferece o máximo de si, sem ser arrogante.

Precisei esperar um bom tempo para ser atendida porque aconteceram intercorrências com outros pacientes dela. Não foi nada perto do que vemos a todo instante em hospitais com atendimento precário, com falta de vagas, de médicos, de tudo.

Não, eu não estava no interior vivendo sem acesso a aparelhagens e a médicos. Eu paguei pela consulta e pedi um recibo.

E acho que deveria ser assim com todo o mundo: Um bom atendimento por um preço justo.

Como em qualquer profissão deveria ser assim.

Uma utopia…

Triste e preocupada, apenas torço para que o engenheiro que construiu minha casa, o motorista do ônibus escolar da minha filha, o cozinheiro da lanchonete que prepara meu hambúrguer  – só para citar alguns – sejam profissionais e competentes, ainda que mal humorados.

Infelizmente o mundo é desigual.

Felizmente posso agradecer a benção.