Intimidade

Ela morava em Washington fazia cinco anos. Quando recebeu a proposta de emprego e especialização, um ano após terminar a faculdade; e  depois que passou a pasmaceira do susto, tratou de seguir seu rumo. Para ela o ano havia se desdobrado em muitos; cinco anos? Impossível. Só mesmo as datas comemorativas confirmavam a passagem do tempo.

Um dia acordou febril e triste. Em algum momento da noite transitou pelas lembranças de seu tempo de menina e moça. Telefonou para a mãe. Fazia isso todos os dias, mas, desta vez, sua voz  estava mais pungente.

– Preciso que encontre para mim um chaveiro de pé de coelho e uma poesia que escrevi lá pelos dez anos. A poesia fala sobre encantamento. Por favor, poderia procurar nos meus papéis?

A mãe abriu a porta do quarto da filha única, que visitava às vezes para limpar e amenizar saudades. Abriu as cortinas, as janelas, tudo. E começou a busca.

Achar o pé de coelho foi muito fácil. Para encontrar a poesia, precisou abrir cada pasta e fuxicar nas gavetas. Enquanto isso se dava conta de toda uma vida particular da menina, seus sonhos e suas ambivalências ali descobertos, nus. Porque para a mãe sempre muito discreta, só à filha pertenciam seus segredos.

Não imaginava em que momento as lembranças da menina deixaram de ser íntimas, para se  tornarem apenas os velhos papéis da moça.

Quando enfim encontrou a poesia, tratou de guardar tudo nas mesmas pastas e gavetas. Teve vontade de jogar fora as lições de matemática e os apontamentos de geografia, mas quem era ela para decidir o que era lixo?

Saiu do quarto, trancou a porta e decidiu:

– Quando ela vier em férias, vamos fazer uma faxina.

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