Dakota

Chegamos para a nossa festa, reunião de família.  Todo mundo animado, muita gente cuidando da comida farta e da bebida – mais farta ainda. Uma recepção memorável, deixou saudades. Muito prazer em vê-los todos felizes e cheios de assunto.

Então vi um gato arisco – andava se encostando nas paredes, entre as sombras, tenso. Gato bonito, siamês.  Ele sabia muito bem que dentro de casa era a praia dele. Sempre que se sentia ameaçado ia para sala e parecia dizer:

– Vem para você ver!!!!

Foi quando notei   Dakota. É uma Schnauzer grande; com aquele olhar firme, ao mesmo tempo direto e profundo, que faz a gente gostar dela imediatamente. Ela queria ficar perto das pessoas e a qualquer chamado vinha obediente e o mais interessante, sem pedir comida.

Tenho um cachorrão aqui em casa, mas sempre que chamo, ou passo por ele, o rapaz olha diretamente para minhas mãos. Quer um biscoito ou uma fruta.

A Dakota, não!  Está treinada a não receber comida, a não ser depois que todos da casa tenham terminado. Em seu lar, todos compreendem os malefícios da comilança, portanto ponderam sempre.

Dificil pegar o Mel, bichinho desconfiado, cheio das manhas.

A Dakota, que adora um carinho no lombo devidamente tosado de acordo com o padrão da raça – gracinha –  vem logo para o abraço. A boca fechada, aquele olhar intenso.

Eu estava assim a agradá-la, apertava as bochechas e coçava seu queixo, então cheguei perto com meu próprio focinho,  para rememorar papai e fazer um “nariz com nariz”. Afaguei suas orelhas e estava bastante confortável, relaxada, sem medo, quando ela mostrou a que veio.

Lambeu-me o rosto completamente!  E eu… fiquei sem graça!

Mas é assim mesmo, garota!

Agrade quem lhe agrada!

Egoísta

Mamãe nos disse a vida toda: – Criei meus filhos para o mundo!

Tanto que ela nunca chorou em nossos casamentos. Ficava feliz, um sorriso rasgado.

Faz uns três anos, ela reclamava de saudade dos filhos…

Disse a ela:

– Mamãe você sempre disse que criou os filhos para o mundo!

e ela:

– AH, não! Estou muito egoísta ultimamente! Quero todos perto de mim!

Imagem inusitada.

Saímos para providenciar a ceia de Natal, agora que Marthinha confirmou sua vinda e chega com o verão. Na volta vimos uma cena digna de nota. Em um imenso caminhão três rapazes com idade por volta de 30 anos, espremidos na boleia do caminhão em movimento, comiam animadamente de suas quentinhas. Inclusive o motorista! Gostaria de ter fotografado. Perigoso, mas uma linda imagem.

Beija-flores

Perdoem-me se contar errado, mas é assim que me recordo hoje.

Marcos, pescador dos “bão”, tem um sítio na beira de um rio onde vicejam muitos pés de Ingá. Ele conta que eram árvores  de porte pequeno e sempre floriam.  Atraíam principalmente os beija-flores; as árvores sempre em festa com seus penduricalhos passarinhos.

Quando mamãe construiu sua última casa grande, Marcos levou uma muda de ingá para ela, que sempre amou os pássaros, principalmente os beija-flores.

Uns anos depois a árvore estava enorme e a cada ano maior; e nada de floradas…

Não fez muita diferença porque diversos tipos de pássaros canoros passavam por ali a construir seus ninhos ou descansar um pouco, antes de seguirem viagem.

E em volta do ingazeiro no quintal e em todo o jardim, em toda a varanda havia tanta flor que não faltaram cuitelinhos para nossa alegria e a dela.

Um banho quente

Todas as manhãs, ao despertar, tomo um banho quente para lavar a noite. Esfrego bem as costas. Só então, muito limpa e úmida saio do sonho para encarar a dura realidade. 

Apesar do céu azul, apesar do mar, do vento e tudo, por onde ando há violência e crime. Até mesmo ao cortar um tomate ao meio, sofro. Pobre tomate. E enquanto mastigo sua polpa já estou preparada para a próxima etapa. Venho traficar palavras, desassossegada.

Marianinha

“A filha, Marianinha, a única filha, passou do hábito de chupar o dedo para outro, o de roer as unhas. Suzana tentou de tudo: pimenta, castigo, palmadas. Parecia que a menina desdenhava de sua autoridade, mas, coitadinha,  era de fato fraca de espírito como sua avó. Por mais que se concentrasse, bastava deixar o pensamento livre para ouvir um estrondoso: – Tire a mão da boca! Estava sempre expectante, parecia um coelho de olhos redondos; as orelhas trêmulas e atentas.  Aos quinze conheceu o namorado e o cigarro e desde então seu vício amadureceu com ela”.