Medo

Confesso, tenho medo de cachorro…

Vacas, cobras, ratos? Tiro de letra!

Sim, estudei veterinária, mas tenho medo dos cachorros que não conheço, ou quando cismo…

A não ser pelo meu rottweiler, todos os outros cães do mundo me apavoram.

Avisto algum lá na esquina e já vou atravessando a rua, para garantir a maior distância possível. 

E mesmo assim, preciso me concentrar e não pensar em cão – aprendi na escola que eles identificam quem tem medo deles.

Daí penso em um muro alto e conto os tijolos…

Coisa de maluco…

Dar um fim!

O número de roupas que uma pessoa comum pode armazenar é diretamente proporcional ao tamanho de seu armário. Muitas vezes, peças imprestáveis até mesmo para serem pano de chão, ou um trapinho para o cachorro, dividem o espaço na gaveta com roupas modernas e de bom caimento. 

Existem  fórmulas  eficazes, mas difíceis de cumprir:

Para cada roupa que entra, uma tem que sair. Chamo de “dar um fim”, que significa doar, vender, queimar…

Um outro jeito é limpar sem dó o guarda roupas estipulando um prazo: Se faz um ano que não uso, não vou mais usar. Fim!

Ou enlouquecer de vez e jogar pela janela peças queridas que tem história, em um exercício de desapego, que pode render muitos anos de culpa e terapia.

Mas, vamos lá! Um bom motivo para virar a página, quero dizer, esvaziar a gaveta, é ter uma viagem internacional nos instigando às compras. 

E é certeza. Independente de quanto espaço foi conseguido com a limpeza do armário, ao fim da viagem, nova bagagem!

E o guarda roupas fica lotado outra vez. 

 

“How fragile we are”

Aos 35 graus da hora do almoço, ele saiu perfumado do banho.

Eu estava a lidar com a casa, varria e lustrava; e suava profusamente.

Preferi lançar um beijo de longe, não queria macular a fatiota impecável e cheirosa.

Quando ouvi o portão batendo, indicação de que ele saíra definitivamente, levei um susto ao pensar na fragilidade da vida e tudo.

Deveria te-lo abraçado muito, beijado de verdade; deveria ter dito um carinho: – volte logo, meu bem.

Pois é assim, nesses pequenos momentos compartilhados do dia a dia, que a vida vale a pena e a gente se fortalece.

Remendos

Soube que há um buraco negro em cada casa. Aqui desaparecem as meias sociais – nunca as brancas e puídas da ginástica;  as meias de seda – não, não é a bebida é a meia-calça; e também sutiãs e tesouras. 

As tesouras, dei um jeito – coloquei uma em cada ambiente, com cores de cabo distintas. A tesoura da cozinha tem cabo vermelho e ai de quem carregar pra outro lugar! E por aí vai.

O buraco também engole às vezes um pedaço do meu coração. Só ali das entranhas mesmo, e é quando ele me dói, magoado e tristonho.

Quando isso acontece vou logo procurar no saco de roupas velhas. Aquelas roupas de que nem me lembro que tinha e que ficaram guardadas para fazer colchas de retalhos. 

É assim que meu coração vira caboclo. Faria sucesso em qualquer festa de São João. 

Todo remendadinho.