Os pequeninos

Quando fiz estágio na pediatria, não me lembro se no quinto ou sexto ano, tive alguns pacientinhos especiais. 

Um deles era o Michel, filho de ciganos, que quando souberam que o menino iria morrer – tinha um câncer de rim muito maligno – a família levantou acampamento e foi embora. 

O pequenino tinha quase dois anos e de certa forma nos adotamos.

Ele carente de mãe e eu carente de filho. Ele precisando receber, eu precisando doar amor. 

Entretanto sabia que ele não iria sobreviver…

Grande ambivalência.

Perdi a objetividade. Estive envolvida demais e sofria.

Ele falava em uma língua estranha, que eu não compreendia. Mas sabia que ele queria carinho quando tentava desabotoar meu jaleco e dizia: 

– Mamaia, mamaia. 

Foi com ele que aprendi a trocar fraldas, limpar vômito, pegar no colo, fazer dormir…

Foi por ele que descobri que a pediatria não era para mim…

Mas é muito bom saber que existem pessoas capazes de cuidar com amor, sem perder o senso. 

A experiencia com o Michel foi um extremo, é claro.

Na maioria das vezes é possível cuidar dos pequeninos e ver sua recuperação em geral rápida, e isso é uma alegria. 

A mãe do “Uaschinton”, por exemplo, me reconheceu na rua cinco anos depois que cuidei do bebezinho dela que sofria de desnutrição. Foi emocionante saber que ele estava saudável e ver a gratidão daquela mãe. 

Parabéns aos pediatras! São pessoas abençoadas!

Temperos

Às vezes me dou bem na cozinha!

Uma carne especialmente temperada e macia, um risoto cheiroso e com ótimo sabor!

Mas tenho um problema incontornável; por mais que eu queira, não consigo resolver.

Eu invento!

Tudo bem quando não dá certo…

Mas se fica bom, enquanto como e recebo elogios, fico pensando:

O que foi que coloquei aqui mesmo?

Uma colher de sal? Cebola? A pimenta… qual? E alho? Qual das ervas da minha despensa adicionei?

Nunca mais ficará tão bom!

Receitas são como as ondas… nunca são as mesmas, por mais que se pareçam…

Santo Forte!

Era dia de folga, era dia de festa!

Um churrasco, muitos amigos queridos e uma piscina em um fim de semana muito quente.

Ele pulou. Distraído. Piscina rasa. Bateu a cabeça no fundo.

Deve ter ficado um pouco zonzo, dor na cabeça, dor no pescoço.

Um amigo avisou:

– Nossa, Gabi, tem sangue na sua cabeça! Melhor ir pro hospital…

E foram. Ele no banco do carona, uma amiga atrás dele segurando firme a cabeça, enquanto chacoalhavam pela estrada irregular.

No hospital viram o corte na cabeça, na tomografia viram a primeira vértebra cervical fraturada!

Medo. Pânico.  E o médico:

– Você nasceu de novo, viu? Feliz Ano Novo!

Porque contra todas as expectativas naquele tipo de fratura, não ficou tetraplégico, como o Super-Homem, o Marcelo Rubens Paiva, a Laís Souza. Ele saiu ileso!

Depois de muita reza – a família toda em um mutirão de fé, todos os santos acionados, as Nossa Senhoras todas juntas, os melhores médicos; ele ficou de castigo!

Por mais de três meses com um colete no pescoço, o tempo todo, o dia todo, a noite toda.

Punição terrível para um rapaz de uns trinta anos, muito legal, muito tranquilo e muito querido por tanta gente.

Todo mundo ajudou: – Força, Gabi!

A irmã dele, a Júlia, cuidou dele como se fosse o único. E é! 

Enfim acabou o castigo. Já pode sair sem o colete que lhe dava um ar de Darth Vader.

Fisioterapia, um colete mais macio, uma nova vida!

Sabemos  que tem gente lá no céu intercedendo a seu favor. 

De qualquer forma, resta dizer:

_  Ô, sorte!!!

Recordar

Fez um ano ontem.

Nada mudou. 

Achei que fosse acordar conformada, sem sentir esse aperto no peito, sem suspirar doída de saudade.

Que nada!

Afinal, seria como esquecer de pelo menos metade de mim. Porque a vejo em meus gestos, em minha risada, nas frases que falo, nos versos que escrevo. Ela está aqui com seus genes espanhóis  para me fazer ir adiante quando me olho no espelho e a vejo em meu rosto.

E ela pragmática, sempre econômica e de bem com a vida, quando me vê assim, gulosa, querendo mais um pouco dela; vem soprar no meu ouvido:

– Agora chega!

Rojão

Se eu visse um rapaz, de um metro e oitenta, pardo, cabelo curto, batidinho, camiseta azul clara e jeans manchado; se eu visse alguém com sapatos marrons comuns, desses de batidão diário; e se na mão dele estivesse um pano preto amarfanhado; passaria os olhos desinteressada, preocupada com minha própria rotina e me desviaria o suficiente apenas para não encostar nele ao cruzarmos, não teria medo, talvez nem reparasse.

Agora, não!  A imagem desse moço deixou de ser lugar comum, transportou-se para a esfera do maligno, do obscuro, do obsceno.

O filme que vejo centenas de vezes repetido na tela de tv, me mostra um rapaz comum, brasileiro; e a não ser pelo caminhar determinado e a boca ligeiramente crispada (estarei inventando?) é quem vemos a toda hora pelo país.

De agora em diante tenho medo das pessoas comuns. Tenho medo de um tiro, um rojão, uma bomba de efeito moral.

Medo dos bandidos e dos mocinhos; medo!

Melhor nem sair de casa, porque sair é como uma expedição às savanas da Africa, animais selvagens abundam; ir ao centro é se arriscar a morrer por um cisco, um nada, por nada.

E assim, a cada dia nos tornamos mais virtuais.

Se posso ficar aqui em frente ao computador e alertar quem vive no calor lá fora, que o mundo real está um perigo, que devem todos voltar às casas, tempos de toque de recolher ainda pela manhã; eu fico!

Por ser virtual ninguém me toca, nem me veem.

A realidade é virtual depois do caos.

E aí sim, o rapaz e eu para sempre reconhecidos nas mídias e redes sociais.

Ele o vilão e eu a vítima!

Amsterdan

Estávamos em Amsterdan e andávamos a pé por toda a cidade, muitas horas por dia. Em dado momento, famintos, entramos em um restaurante Tailandês. Um ambiente na penumbra, luz indireta em lanternas vermelhas e enfeites típicos. O cardápio era em Tailandês ou em Holandês; portanto – grego! Com o garçom foi possível conversar em um inglês rudimentar, mas decidimos por uma sopa de barbatana de tubarão com algo indefinido; não conseguimos descobrir.

Quando a sopa chegou, quentinha e cheirosa, atacamos. O gosto era ainda melhor que o cheiro. Um sabor indescritível, colherada após colherada. Dentro do caldo translúcido da sopa encontramos “pedaços” consistentes de cor esbranquiçada e que pareciam se mover espontaneamente ao contato com a colher. Comemos tudo. Estava muito bom! 

Amsterdã tem dessas coisas… A gente viaja!