Rojão

Se eu visse um rapaz, de um metro e oitenta, pardo, cabelo curto, batidinho, camiseta azul clara e jeans manchado; se eu visse alguém com sapatos marrons comuns, desses de batidão diário; e se na mão dele estivesse um pano preto amarfanhado; passaria os olhos desinteressada, preocupada com minha própria rotina e me desviaria o suficiente apenas para não encostar nele ao cruzarmos, não teria medo, talvez nem reparasse.

Agora, não!  A imagem desse moço deixou de ser lugar comum, transportou-se para a esfera do maligno, do obscuro, do obsceno.

O filme que vejo centenas de vezes repetido na tela de tv, me mostra um rapaz comum, brasileiro; e a não ser pelo caminhar determinado e a boca ligeiramente crispada (estarei inventando?) é quem vemos a toda hora pelo país.

De agora em diante tenho medo das pessoas comuns. Tenho medo de um tiro, um rojão, uma bomba de efeito moral.

Medo dos bandidos e dos mocinhos; medo!

Melhor nem sair de casa, porque sair é como uma expedição às savanas da Africa, animais selvagens abundam; ir ao centro é se arriscar a morrer por um cisco, um nada, por nada.

E assim, a cada dia nos tornamos mais virtuais.

Se posso ficar aqui em frente ao computador e alertar quem vive no calor lá fora, que o mundo real está um perigo, que devem todos voltar às casas, tempos de toque de recolher ainda pela manhã; eu fico!

Por ser virtual ninguém me toca, nem me veem.

A realidade é virtual depois do caos.

E aí sim, o rapaz e eu para sempre reconhecidos nas mídias e redes sociais.

Ele o vilão e eu a vítima!

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