Colírios…

Para quem sempre enxergou muito bem, lidar com a perda progressiva da visão pode ser complicado. Como estamos cada dia mais longevos, é natural que essas intercorrências típicas da idade apareçam com mais frequência. 

A catarata por exemplo, seja por alguma doença associada, seja por excesso de Rx; ou por alterações da camada de ozônio, está cada vez mais comum. Nada muito complicado a não ser pelo fato de o paciente precisar ficar a mercê de quem o ajude e tenha paciência para pingar colírio de tempos em tempos.  E depois de umas semanas atribuladas, o paciente volta a enxergar muito bem e fica feliz da vida!

Conversando sobre o assunto com Helena, lembrei-me de uma situação muito curiosa.

Tenho um cachorro grande, um Rottweiler do bem, que faz uns anos precisou ser operado das pálpebras – (entrópio) – quero dizer; os cílios roçavam os olhos e causavam úlceras de córnea, que são muito dolorosas e podem levar à cegueira. 

A cirurgia do Haus correu bem, mas no pós operatório lá fui eu pingar colírio de tantas em tantas horas.

Levava uns biscoitos e a “arma” – o colírio.

Mandava o bruto sentar; e ele obedecia. Dava o comando: – Olha – e mostrava o biscoito. Ele, estático, de olhos no biscoito, aguardava o próximo passo – ganhar o petisco. Então eu pingava as gotas. De um lado e depois do outro. E em seguida entregava o biscoito.

Mas, em poucos dias ele aprendeu mais uma manobra:

Quando eu dizia – olha – em uma mão  o biscoito e na outra  o colírio, ele olhava direitinho… mas fechava o olho da vez para o colírio! 

Cachorro esperto…

 

Jogo do bicho!

Sonhei com uma galinha muito exótica, que, de rolinha, cresceu em poucas horas até ficar do tamanho de uma galinha da Angola.  Mas suas penas eram largas e coloridíssimas. 

Depois de muitas intercorrências oníricas, acordei pensando quem teria sido criado primeiro, se o ovo ou a ave da minha imaginação. Fiz alguns telefonemas para meus irmãos para descobrir quem teria uma peça semelhante, feita de barro ou madeira…

Lá pelas tantas, alguém sugeriu:

– Joga no bicho! Vai dar galo na cabeça!

É automático!

Uma das vezes em que fui assaltada aqui no Rio, dirigia a Explorer e quando ia fechar a porta do carro, o rapaz bonito e alinhado falou assim,  sorrindo como se me conhecesse:

– É um assalto. Estou com uma arma apontada para você. Deixa tudo aí dentro. Vou levar o carro  e não se preocupe, que vou deixá-lo depois da saída do pedágio.

Entreguei a chave, ele foi entrando e eu ainda disse, correndo o risco de que ele me levasse junto:

– Mas o carro é automático! –  Imediatamente percebi minha besteira e fui saindo em direção à pet shop.

Enquanto me acalmava, uma senhora chegou avisando que tinham abandonado uma camionete azul no estacionamento. 

Não acreditei. Fui lá fora e vi minha Explorer de portas abertas para mim, com a chave na ignição, e o barulho do alarme – tén den den…

Que sorte, só perdi os documentos, a bolsa e um livro de anatomia canina.

Faz uns dias soube que um colega foi assaltado em plena avenida Brasil, às seis e meia da tarde. Colocaram um saco em sua cabeça e o levaram junto. Ele ponderou que poderiam levar o carro e tudo que estava lá. Não teve jeito. O ladrão, escolado, precisava dele para ensinar ao adolescente que o acompanhava como se dirige um carro automático. O bandidão foi atrás do banco do carona, onde estava meu amigo encapuzado à revelia. Rodaram umas três horas antes de abandonarem o coitado em uma praia da zona sul. 

Que sorte! Estava vivo.

 

 

Adoecer

Devia ter uns doze anos quando comecei a fazer caretas e deixar cair o garfo ou o lápis.

Era uma boa aluna, mas naqueles tempos deitava sobre o caderno sobre a mesa e queria que o mundo acabasse.

Uma noite, fui pegar um copo de água no filtro e papai também estava por ali. Ele era bravo e eu estava nervosa e sensível. Fiz tanta careta que ele disse que se eu continuasse com isso iria me dar uma surra!

Felizmente, mamãe achou melhor me levar ao pediatra, que assim que me viu torcer a cara cheia dos salamaleques, diagnosticou coreia – uma das facetas da Febre Reumática.

Bom, diagnósticos à parte, fiquei de molho por um mês – foi quando li todos os livros que havia na estante – e tomei corticóide – fiquei gordota, feinha…

E o pior: Foi decretado que eu deveria tomar Benzetacil todos os meses até os 18 anos pelo menos.

Acho que quase todo mundo já tomou uma Benzetacil na vida, então sabem do que estou falando…

Mamãe era sempre muito prática; se não houvesse álcool na casa para molhar o algodão e fazer assepsia da pele, ela usava a pinga do papai! 

Uns dois anos depois, mamãe viajou para o sul do Brasil em uma excursão – a primeira de uma longa série de viagens incríveis que ela fez na vida.

Durante este período eu “esqueci” de ir à farmácia tomar a injeção.

Acabei doente de novo, dessa vez com artrite reumática, fiquei de cama de novo e li mais um tantão.

Entretanto, quando mamãe entendeu que eu havia pulado a picada da agulha daquele mês, ficou muito brava comigo. Somos oito irmãos, era difícil cuidar de tudo e de todos ao mesmo tempo. Ela disse:

– Cada um tem que cuidar de suas próprias doenças, minha filha!

Eu compreendi. Não são os médicos que cuidam de nós. Somos nós mesmos.

Depois da Febre Reumática tive tantos outros perrengues, que até esqueço de alguns…

Entretanto cuido de cada doença como se fosse um filho. Capricho!

Em meu corpo cabem bem ajustados, a minha alma e minha sensibilidade. 

É o meu bem mais precioso! 

 

 

Coquinho

Ela adotou um coelho…

Hum, coelho? – pensei – que graça tem um coelho?

Não faz festinha, não late, nem ronrona, não chora, não canta…

Um coelho?

Pois bem, a Luciana, minha colega veterinária e companheira de gargalhadas, curtiu esse animalzinho por muitos anos, desde a faculdade.

Tratou dele como se fosse parte da família; e era!

O bichinho era o centro das atenções quando eu ia visitá-la.

Teve problemas articulares graves, foi operado várias vezes; e todos aconselhavam: 

Eutanásia.

Ela não quis. Nunca quis. Não é capaz de “botar pra dormir”. Desistiu dessa tarefa logo depois que se formou em medicina veterinária. Se percebe que não tem jeito, que será melhor para seu paciente, ela encaminha para um colega. 

Seu coraçãozinho não suporta a dor de tirar a vida.

Antes do carnaval, depois de mais de oito anos juntos, o Coquinho ficou doente demais. De velhice. Foi tão querido e tão bem cuidado – nunca ficou só – ele viveu além de seu tempo.

Mas a velhice, fato da vida inexorável, acontece com o bichos também.

Ela não pôde encaminhar. Não quis. 

Ficou com ele até o fim, e o coelhinho morreu em seu colo.

Chico Xavier disse, certa vez, que nossos animais queridos, quando morrem, ficam por perto por uns quatro anos, consolando seus donos. 

Portanto, não fique triste. (Só um pouquinho, vai!)

Só quando estiver pronta, ele vai de fato partir.

 

Parabéns!

Dia sete de março é dia de festa aqui em casa.

Tem um moço bonito que conheci quarenta anos atrás – e que estava em evidência sobre o telhado enquanto consertava a bomba da caixa d’água – que faz aniversário hoje.

Vai ter frango com quiabo e bolo de limão.

Parece simples, mas é uma iguaria para ele.

Convidei para um cinema, mas bateu uma preguiça mútua; e somos um casal faz tanto tempo que podemos deixar pra lá, sem mágoas.

Vamos ficar por aqui, trocando ideias sobre os livros que cada um está lendo, e dividindo um chá gelado. 

Muito bom!

E depois do jantar tem bolo!

Sem velas, claro!