Não olhe para trás!

– Não olhe para trás!

Foi assim que ele me disse ontem, e eu meio que de brincadeira fechei a porta e saí, rumo ao futuro.

Às vezes ouço um chamado em surdina, mas me concentro na passada para a frente, estou me superando.

As novidades, eu as vejo por toda a parte, nas florezinhas do mato e nos micos engraçados, tão bonitinhos…

Decidi que vou por um lado e volto por outro, para não andar sobre os mesmos passos.

Não olhar para trás me deixou mais leve; quase posso correr. Que alegria!

Nada de vasculhar gavetas e guardados, corro o risco de virar estátua de sal.

De mansinho, o futuro vai se abrir, uma porta ampla, seu conteúdo iluminado.

Vai valer a pena!

 

Viagens virtuais

Existe uma forma de felicidade muito moderna, que é poder viajar com os amigos queridos através do computador. 

Quando menina fui convidada certa vez para passar os slides de um casal que estivera em lua de mel. A viagem tinha terminado fazia meses, eles já entravam naquele “mode on” do casamento. Foram trezentos slides!!! Todos comentados e celebrados; até discutidos algumas vezes. Tive um pouco de preguiça, confesso.

Atualmente vivenciamos “in loco” do café da manhã aos  teores alcoólicos do jantar. Participamos de tudo, com mensagens e exclamações de prazer compartilhado.

Claro, podemos olhar fotos e mais fotos de qualquer lugar belíssimo do mundo pela internet.

Entretanto quando nossos queridos viajam e postam instantaneamente a beleza e a emoção em que vivem, é como estar lá juntinho com eles.

Ando viajando tanto! Paris, Londres, NY, Vancouver…

Chego a sentir até mesmo pena quando é o fim da viagem e vejo que estão embarcando de volta depois de dias intensos e coloridos.

Na minha próxima viagem, convido a todos para se divertirem comigo. Preparem o vinho e a música. Vamos arrebentar!

 

Memórias

Se de noite ando em boa companhia, tenho amigos do peito, e dou risada àtoa;

pela manhã me guardo, resguardo, e choro.

De fato, meu choro é suspiro, daqueles que vem do fundo e saem entrecortados e múltiplos.

À noite procuro um bar, ou uma discoteca antiga; e as lembranças dos meus vinte e poucos anos.

Eu já era assim, ambivalente; às vezes trágica, às vezes ambiciosa.

Passadas as décadas, a contagem inexorável do tempo cobra seu preço.

Eu tenho fome. Eu tenho medo. Eu tenho história.

Só por isso continuo. 

 

 

 

Vida de cachorro 2

Pela manhã, assim que escuto Patrícia chamar: – Vamos ver o olhinho, Haus? – já sei do que se trata.

Vou em direção à coluna onde fica a focinheira presa em uma guia.

Ela chega com um pote de sorvete kibon cheio de medicamentos. Ofereço meu focinho à focinheira, excesso de zelo, porque jamais irei morder a mão que me afaga. Entretanto é um pouco incômodo quando ela chega bem pertinho com a pomada para colocar em cada olho –  o que me ajuda a suportar melhor a coceira por causa da conjuntivite seca.

Depois que ela coloca um pouco de pomada em cada olho e faz uma massagem para espalhar o produto, ela me solta da focinheira e me agrada com um petisco e um carinho atrás da orelha.

Então, manda que eu sente, depois deite, depois que finja estar morto. Em seguida ela pede:

– Rola! É um truque que aprendi faz pouco tempo, mas que ela adora quando consigo cumprir. Para mim é mais fácil rodar para a esquerda, nem sei porquê.

Minha dona fica bem feliz quando faço tudo direitinho. Ganho carinho e petiscos. Sei que ela me adora!

Eita, vida boa, gente!

Super homem

Quando dobrei a esquina e comecei a caminhar um longo trecho reto da pista de caminhada, avistei, na outra ponta, um atleta que corria em minha direção. Pisquei os olhos e ele estava assustadoramente mais perto. Quando passou por mim percebi que fazia um pique de corrida, muito concentrado. Deu tempo de ver sua camiseta sem mangas com as cores e o emblema do super homem. 

Não olhei para trás… Mas imaginei que ele estava tomando impulso para alçar voo e ir salvar alguém do outro lado da cidade.

Vida de cachorro

Não sou muito chegado à chuva, nem ao banho, ou jatos de irrigação. Fico quieto no meu canto e aguardo a água passar, com respeito e um pouco de tédio. Aliás, o tédio é uma constante em minha vida de cachorro mal humorado… Porque meus colegas preferem manter distância; sou muito grande e tenho uma cara feia. Os humanos atravessam a rua quando me veem de longe. Então, passeio de madrugada com meu amigo Antonio, que depois vai cuidar do jardim; e eu fico de longe espiando. 

Está certo que meus donos me adoram. Fazem tudo por mim. Então vou levando assim minha vida de cachorro. 

Mas, confesso: Abano o cotoco rapidamente quando minha dona vem fazer um cafuné no meu pescoço enquanto lê, deitada na cadeira da vovó.

E também fico muito feliz na hora da boia; e meu dono sempre capricha na porção. 

Distrações no escafandro

Ontem, no programa Em Pauta, da Globo News, comentaram sobre uma campanha que está sendo realizada neste mês de abril, nos Estados Unidos, sobre as distrações ao volante. 

Multimídias que temos sido nessa era de mensagens rápidas – comparem com o episódio do mensageiro que correu até a cidade de Maratona – quando as informações nos caem aos olhos, e ouvidos à revelia, estar desconectado no trânsito soa até falta de engajamento…

Entretanto os riscos são tantos… No máximo ouvir as notícias do rádio. Mas o celular, o tablet,  o computador, devem ficar distantes o suficiente para que a gente nem corra o risco de querer ver as mensagens “só desta vez”. 

Ouvir o rádio, sejam as notícias, seja uma boa música, pode ajudar a passar o tempo ocioso cada vez maior dentro do escafandro do automóvel, enquanto o trânsito infernal piora a cada dia…  Ou, devo dizer, a cada período, como acontecia com a inflação galopante dos anos mil novecentos e oitenta, quando os computadores pessoais ainda eram raros… 

Talvez fosse possível inventar um dispositivo que assim que se desse partida na ignição, toda a parafernália tecnológica adormecesse…

No máximo o rádio, ou um livro falado, que saibam, pode ser estimulante; uma viagem mesmo, se fizermos uma boa escolha:

A Montanha Mágica, Cem Anos de solidão, Enamoramentos…

Ainda assim iremos todas vasculhar a bolsa à procura de um batonzinho que nos torne mais apresentáveis aos olhos do espelho retrovisor.