À galega

Fato: Não há lugar mais importante do polegar que aquele que está machucado. Tudo o que se vai fazer parece precisar justamente daquele pedacinho de dedo que está estropiado. E por menor que seja o ferimento, o curativo acaba sendo grande e medonho, porque a ponta dos dedos com sua forma um tanto cônica não ajuda na construção de qualquer proteção. 

Fato: Se você está com um desastroso curativo no polegar estará fadado a precisar daquele dedo para atividades comuns em que a gente nem percebe que usou em outras circunstancias. É tudo tão automático nessa nossa vida de eficientes físicos…

Mas fica a dor ocasional de quando encostamos a ferida  em um objeto qualquer, para nos lembrar que temos muita sorte – pois não perdemos artefato tão fundamental – e que depois de algum tempo tudo estará sadio de novo e pronto para a próxima atividade à galega.

Desfastio

Porque os cães também tem sentimentos, às vezes nos parecem tristes…

Porque também tem lá sua almazinha, às vezes se sentem sozinhos.

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E quando sonham, sonham como nós, pesadelos da pesada, que os estremece; e choram…

Porque os cães tem uma rotina, às vezes se entediam, às vezes se revoltam, pulam, rosnam. 

Porque tem uns donos, nem sempre muito atentos, às vezes fazem artes desconcertantes.

É por isso que a gente tantas vezes acha que o cão está sentindo o que de fato é o nosso sentimento.

 

Delivery

Uma Honda CG 125, bem detonada pelo uso intenso, passou pelo corredor entre os carros em alta velocidade, buzinando e desviando de um e outro espelho retrovisor dos motoristas que aguardavam sem paciência o sinal verde.

A motocicleta tinha uma caixa avantajada na garupa onde estava escrito “Pizzas delivery”. O capacete virava para lá e para cá, e a magrela, parada no farol,  agitava umas pernas  bem inquietas. 

No amarelo, a moto empinou levemente e saiu na frente. Quase atropelou o cavalo de uma carroça velha que, imprudente, dividia o espaço com os carros em plena avenida das Américas. O cavalo refugou, virou-se para o outro lado e a moto a essa altura já estava a pelo menos cem metros adiante. Ela atravessou o cruzamento seguinte também no sinal amarelo e continuou assim levando sua torre de pizzas para o além. 

Lembrei-me de quando ganhei minha XLX e aprendia a pilotar. O instrutor, ao me ver estressada com a alma viva da máquina ponderou:

– Escute, moto não é cavalo. Ela só vai fazer o que você mandar.

Rapaz esperto aquele.

O livro

Estou voltando do correio, acabei de despachar as primeiras encomendas do meu livro. O coração sambando aqui dentro, estou tonta ainda. Uma experiência única de ter produzido bastante, batalhado muito e por fim concretizado meu objetivo. Obrigada pela força e carinho de todos! 

Vida de cachorro 4

Porque ando um pouco triste, sem ter o que fazer, decidi lamber a pata traseira compulsivamente. A Patrícia deu bronca, me agradou com uma garrafa pet vazia que faz um barulhão e eu fiquei entretido. Garrafa destruída, voltei ao lambe-lambe da pata.

Por se preocupar muito comigo, Patrícia foi procurar alguma solução. Comprou um floral específico para este tipo de compulsão que eu provei e achei com gosto enjoado de remédio, não quis. Então ela diluiu na minha água; se eu sou teimoso ela é muito mais.

Também arranjou uma bolinha interessante que fazia barulho de pato e ela colocou uns pedaços de bolacha nos orifícios da bola. Eu fiquei intrigado e me diverti. Mas só uns dez minutos, tempo que levei para destruir a bola e tirar o “pato” lá de dentro.

Pronto! Fiquei sem a bola-delícia.

Mas estou certo que a Patrícia vai inventar outra novidade.

Enquanto isso vou ficando por aqui, lambendo minha pata…

 

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Granizo

Nesta madrugada choveu granizo dentro do meu estômago.

Finas farpas geladas pinicavam agudas, até se dissolverem num ácido morno e condescendente. 

Deitei de lado, enroscando o cobertor em meu corpo como se eu fosse um  bebê.

Abriram as cortinas e um céu carregado de cinzas entrou sob minhas pálpebras.

Acordei; amanheceu outra vez. 

Depois do café quentinho, espreguicei preguiçosa e enfim fui catar uns trapos velhos no guarda roupas para jogar no lixo. 

Preciso de espaço para as novidades.  

Mulher da vida

A filha única de um casal de meia idade, depois que entrou na faculdade de direito, mudou de vida.

Se antes namorava para se casar, tratou de terminar o romance de mais de três anos; queria mesmo é se divertir e conhecer o mundo.

Se antes era tímida e usava roupas largas de tons neutros, mudou seu guarda roupas. Academia todos os dias, fones de ouvido descolados, cabelos coloridos, ela estava em festa.

O telefone não parava de tocar. Era o Flávio, era o Cláudio, era o Márcio,  o Nestor.

O pai que preferia sua filha como antes, chamou-a para conversar. Sentado em sua poltrona, esperou que ela se refestelasse no sofá.  A moça tinha pressa, balançava as pernas bronzeadas dentro do tubinho vermelho, estava pronta para sair.

O pai, começou:

– Minha filha, afinal quem é seu namorado? Você está agindo como uma prostituta!

Ela olhou o relógio, levantou-se e disparou:

– Pai, eu não ganho nada para fazer o que faço!

E saiu batendo a porta da frente.