Os ratos e os fatos

– Você se lembra, lembra?! – da infestação de ratos do último verão?

– Quando ouvíamos  passinhos no sótão e pedaços de isopor da forração isolante do teto caíam sobre nossas cabeças?

– Lembra dos ratos zunindo pelos corredores, com seus dentinhos afiados, as coxas musculosas e rápidas?

– Lembra dos ratos que pulavam de dentro da ração do cachorro, certos de terem sido surpreendidos sem motivo aparente?

– E das vassouras – cada vassourada, um grito? E de subir na cadeira para manter uma distância segura deles?

– Roeram nosso queijo mineiro que estava sobre a geladeira, refestelaram-se na pia da cozinha onde jaziam os dois pratos e os talheres de nossa última refeição, lembra?

– E da ratazana  flácida, que abortou antes de morrer cinco ratinhos brancos depois que espalhamos veneno pelos cômodos? E que ponderamos contratar o flautista de Hamelin?

Parei de falar e olhei para minha plateia. Ele, incrédulo; ela, admirada.

Eu estava flutuando, meus pés a alguns centímetros do chão.  Aterrissei. A minha alegre figura se recompôs. Disse ainda:

– Está certo que ando envolvida com a ficção e a fantasia. Entretanto toda ficção tem um mínimo de substrato.

Ambos concordaram.

 

 

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