As mães

Assisti agora a pouco a um vídeo que mostra a conversa de uma filha com sua mãe velhinha, muito debilitada, e com sinais de demência. A filha, paciente e carinhosa, escuta sua mãe e interage com ela; trocam ideias. Muito comovente.

Lembrei-me de uma história que mamãe contava sobre sua tia, que em situação semelhante, ficara aos cuidados da filha, que cuidava dela mesmo, “pegava no colo”.

A mãe velhinha tinha sido costureira e sempre fora caprichosa e detalhista. Seu trabalho era um primor.

A filha arrumava a cama com frequência para deixar sua mãe confortável e limpinha. Certa vez deu por falta da fronha. Não entendia como poderia ter esquecido, estaria ela também perdendo a memória?

Depois de muita procura, descobriu.

Sua mãe, enquanto sozinha, havia retirado a fronha do travesseiro, e trabalhado nela por um tempo, desalinhavando cuidadosamente partes dos “retalhos de tecido.”

E havia vestido a fronha como se fosse uma blusinha.

Ocorre-me que alguma memória fica. A alma em sua essência está ali.  Dentro daquele corpo franzino e doente existia ainda a pessoa que ela  fora.

Ainda que estivesse vestida com uma fronha.

Bonequinha de luxo

Faz uns 15 anos, ganhei de aniversário, uma boneca que ouve e fala.

Tem um pouco mais de 150 cm; é grande, vistosa e magra.

Veio com um kit de roupinhas lindas que se combinam e combinam com ela. E é perfumada, acreditem. 

O cabelo é loiro, comprido, até o meio das costas e os olhos cor de caramelo, graúdos e atentos.  Os cílios longos de boneca às vezes piscam e outras vezes fixam-se abertos e calmos.

Não é preciso apertar sua barriguinha para que ela fale claramente articulada e conclusiva.

Às vezes pergunta: – Você gosta de mim?

Eu respondo: – Gosto muito de você.

E é assim que sei de seu apreço.

E antes de sair para o mundo, abraço forte essa minha boneca para estar segura de que voltarei em algum momento e ela estará ali, tranquila, soberana, na expectativa da minha volta. 

Serenatas

Terminei a leitura de O Vale do Dragão, do Piero Souza Dias Caramelli. 

Foi escrito para crianças e adolescentes mas eu, que já estou bem madura, pude voltar à infância e reviver o tempo em que meus irmãos e eu brincávamos de bandido e mocinho. Eu era a única menina da turma, mas queria ser igual aos outros e enfrentar os desafios todos em pé de igualdade. Brincávamos de trincheiras e as balas eram torrões de terra; saíamos imundos, cansados, mas muito felizes e prontos para a próxima. 

Também voltei no tempo quando compreendi que a cada desafio do herói do Piero, depois de vencida cada batalha, alguém do grupo que foi libertado se juntava ao personagem principal para participar da próxima etapa. Lembrei-me da época em que fazia serenatas e do mutirão que se criou certa vez, em Barbacena. Foi quando conheci o Miguel, que era  (e é) irmão da minha melhor amiga até hoje. Eu e meu grupo de “artistas” fizemos várias serenatas pela cidade. Foi muito especial porque a cada serenata éramos convidados a entrar e tomar um drinque e depois alguém da casa nos acompanhava em nossa saga pela madrugada.

A última serenata foi na casa dos pais do Miguel.

Em determinado momento olhei para trás – eu estava com o violão e vi toda aquela gente no meio da rua cada um com um “instrumento” musical: panelas, caixas de fósforo, um pandeiro, latas e as vozes, todas desafinadas depois de tantas cantorias e bebidinhas.

Foi lindo. Especial. Inesquecível. 

Helena

No dia 22 de junho de 1988, bem no início do inverno em São Paulo, Helena nasceu.

E desde então, ou talvez desde muito antes estivesse escrito que uma estrela ia brilhar para sempre em minha vida, para iluminar o escuro e segurar minha mão quando tivesse medo.

Foi assim que tudo ficou mais fácil, mais emocionante e muito mais divertido.

Brilhe sempre minha estrelinha, que continuarei a adorar sua risada e seu bom senso.

Um bolo de amor e sucesso!

Um abraço apertado e demorado!

 

 

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Foto da Renata Myers

Conjecturas

Por que nos emocionamos tanto com o Hino Nacional? 

Quando começamos a sentir esse amor pela pátria – mesmo que ela seja triste, e pobre, e desencantada?

Por que o hino da França, notoriamente lindo, não nos comove tanto quanto o nosso “Ouviram do Ipiranga”?

De onde vem tanta ternura, tanto amor, e a emoção?

Nascemos do pó em que vivemos… Talvez seja por isso.

Crescemos misturados aos torrões da terra natal, e aprendemos ainda pequenos que somos!

Somos brasileiros! 

E o coração saracoteia no peito, cada vez que sentimos orgulho da terra que nos criou.

 

 

Elevador: Lugar comum (Excerto)

“Como está só e gelado, sua transparência se acentua e quase flui dentro da caixa, até que os sons o fazem constatar a dura e fria realidade; cabos e contrapesos numa sinfonia anacrônica, vozes em crescendo. Percussões dos saltos e bengalas, portas abertas e pessoas, portas fechadas e pessoas, que entulham com bolsas, carrinhos, casais, carinhos e cheiros: de treino, de banho, de anti-caspa, de “delivery”. Roupas de cores, tons e texturas que, misturadas, voltarão ao cinza, do pálido ao chumbo. Nos cantos, nas quinas, há vincos e o tempo. “

Respire fundo

No entorno do Maracanã, um argentino achou por bem, não percebendo outra solução, fazer xixi na rua. Apontou bem em uma mancha verde e amarela no poste e mandou ver. Seu alívio era quase completo quando um PM chegou por trás e deu voz de prisão. 

Naquele bate e volta entre a justiça e a injustiça, uma repórter decidiu filmar o desafortunado meliante e seu algoz.

O PM meteu o argentino no camburão e ato contínuo arrancou e jogou longe o celular da moça que a essa altura estava apavorada. Ela tentou argumentar, mas o PM não entendeu sua linguagem e algemou-a fortemente, para em seguida colocá-la no camburão junto com o argentino flagrado em ato ilícito.

No caminho para a delegacia, o rapaz também algemado disse a sua companheira de “cela”:

Fique calma! Respire fundo!

Pois é….