A venda

Eram muitas. Quase que uma em cada esquina.

Isso faz tempo, antes de existirem os supermercados.

É, faz tempo mesmo.

Eram armazéns, empórios, secos e molhados. A “venda!”

Havia de tudo – bebidas, comidas, ferramentas, e tranqueiras em geral. 

Bom, em casa, de repente, no meio da brincadeira, a mãe aparecia toda suja de farinha e pedia:

– Filha, vá depressa lá na venda e compre meia dúzia de ovos, que acabaram. Peça pra anotar na caderneta.

Na venda, havia sempre  um balcão com prateleiras de vidro que separava o vendedor  dos clientes. Em geral quem atendia era o próprio dono do negócio ou sua mulher e filhos,  que se apoiavam  sobre o vidro para atenderem o freguês.

Faziam-se amizades ali, nas rápidas conversas de se jogar fora, em meio ao fubá, farofas e docinhos caseiros de encher os olhos da vitrine da bancada. Doces vermelhos com açúcar cristal por cima, pés de moleque cheirosos, cocadas…

Para nós, crianças ainda,  nada era mais divertido que levar umas moedinhas e ver no que dava.

Às vezes, só uma bala. Outras, caprichando bem, fuçando nas profundezas dos bolsos, acontecia de encontrar uma nota amarfanhada que dava para comprar dois doces e uma balinha.

Em tempos em que a prevenção de cáries com o flúor não existia, nem as visitas de rotina ao odontopediatra, tinha sorte a criança que chegava até a puberdade com dentes sadios. 

E na hora do jantar, quem queria comer bife de fígado? Era um enrolar eterno com o garfo na mão.

Com esses doces todos, coloridos e perfumados,  feitos ali na vizinhança mesmo, também era muito bom voltar da escola mastigando mentirinhas de prazer.

Acabei viciando… Até hoje sinto o cheiro e a textura.

Acho que estou forçando demais na dieta…

 

 

Intolerância à lactose

Os mamíferos são da classe Mammalia e sua característica fundamental é terem glândulas mamárias para alimentar suas crias. Suas crias. Cada espécie com seu jeito. Por exemplo, as vacas – alimentam o bezerrinho e se forem de boa genética, se forem bem tratadas e estimuladas podem alimentar muita gente e render bons dividendos para seu dono. As cabras, búfalas e em menor grau as éguas também podem produzir em quantidades suficientes para os filhotes e para serem comercializadas em uma indústria extensíssima de produtos derivados do leite. Como é bom degustar um queijo de Minas, uma coalhada, um chocolate quente!

Perto de nós também estão as gatas, as cadelas e as porcas. Todas estas com muitas tetas e uma prole em geral generosa.

   

Durante meus estudos de Medicina Veterinária aprendi algumas pérolas de deixar qualquer leigo boquiaberto. Como é bela a natureza!

Os bacorinhos, por exemplo, são chamados pela mãe e devem estar junto dela mamando durante os próximos quinze minutos, porque depois disso não haverá mais leite, somente horas depois. Talvez por isso não exista leite de porca à venda… Alguém já experimentou? 

Os bezerros, que também são herbívoros e ruminantes, têm um “estômago” de alta complexidade.

Durante os meses de aleitamento, quando os filhotes se colocam para mamar, esticam o pescoço para alcançar o úbere da mãe e é isso que retifica o caminho e dirige o leite  para a câmara apropriada, onde ocorrerá a correta degradação da bebida, com seus açúcares – as lactoses; e suas proteínas de elevado valor biológico.

Entretanto a lactase, enzima que degrada os açúcares, é produzida pelos mamíferos especialmente durante os primeiros meses, depois vão diminuindo.

Por isso tanta gente tem intolerância a lactose. Não fomos feitos pra mamar em plena idade adulta!

Por outro lado, talvez não tivéssemos nos desenvolvido tanto como espécie sem esse aporte proteico de fácil acesso e digestão. 

Além das delícias, claro – o doce de leite, os bolos, os mingaus.

Somos privilegiados por termos tanto! 

Por isso, quando chegar a hora e não pudermos mais administrar a lactose, ao invés do leite, vamos embora tomar os vinhos, mais “veganos”, deliciosos, e que tem o poder de nos fazer esquecer o leite materno que perdemos.

Dona Zica

Fez um prato de sopa, um creme de batatas como dona Zica gostava. Levou até a mesa e colocou em frente à mãe que olhava longe, muito longe.

– Mãe, coma só um pouquinho, olha só, fiz a sopa que você mais gosta, vamos?

Pegou uma colherada da beiradinha do prato, assoprou e ofereceu à mãe. Dona Zica olhou o prato cheio, fumegante, depois olhou para Marina, suspirou,  abriu a boca e tomou o gole. Estava bom. (Marina fechou a boca e deglutiu também conforme a mãe o fazia). 

Dona Zica tomou a colher da filha e de enfiada tomou cinco ou seis goles, esticando o pescoço ao engolir.

Marina sentou-se na cadeira ao lado e observou sua mãe tão enrugadinha e triste.

Dona Zica então travou a boca, tirou o guardanapo do colo e colocou ao lado do prato que empurrou para longe de si.

– Chega.

Era voluntariosa – sempre fora – e fazia o que bem entendia.

Miscelânea

Tenho muitos amigos judeus e muitos outros de ascendência árabe. Todos muito queridos, com suas particularidades, suas humanidades.

Também tenho vários amigos brancos, negros, mulatos, amarelos. E gays bastantes também são meus amigos.

Amigos de extrema direita, de extrema esquerda e toda a variedade de combinações possível.

E nessa miscelânea de raças, religiões, ascendências, preferências políticas, pontos de vista distintos; conheço o mundo, estou viva de verdade.

Ocorreu-me que talvez eu esteja em cima do muro, já que me dou bem com todos.

Não, não é nada disso. É que meu temperamento introvertido me faz aceitar as pessoas como são, com seus ritmos próprios, seus tons e suas convicções.

Não entendo as guerras, as brigas de mão, os black blocs.

Não entendo de anarquias.

Olho tudo isso desolada, que pena que tem que ser assim…

Acabei de me lembrar de uma história que ilustra bem meu sentimento. É bastante simplista, talvez até minimalista, por favor, me perdoem:

O menino e seu adorado cachorrinho brincavam na sala. A mãe do menino,  de repente ouviu um ganido forte e correu para ver o que havia ocorrido.

Na sala, o menino chorava e o cachorro lambia a patinha magoada.

O menino havia mordido o cachorro.

– Filho, por que você mordeu o Billy?

E o menino aos prantos:

– Foi ele que começou!

 

Explosão

Nunca estive em ares tão distantes, nunca.

Também pudera, tenho tanto medo…

Mas quando acontece uma explosão, penso logo em Deus e nos meus. Estarão todos bem? Onde andará Marília sempre tão “viajandeira”? E minha tia Maria sempre disposta ao novo, ao inusitado?

Só depois que me certifico, depois que confiro minha pele e meu pelotão, penso nos que voaram pelos ares e que agora são os mais novos anjos do apocalipse anunciado.

Irresponsáveis, bélicos, perigosos. Posso enumerar muito mais que trezentos adjetivos.

Por estar tão distante  e ser sempre tão medrosa, escancaro os olhos, balanço a cabeça e rezo por eles; e por aqueles que continuam  e jamais sofrerão com justiça o impacto de seus atos.

 

 

Poesia

Não sei fazer poesia… E agora?

Sei falar bonito às vezes,  em geral gosto do que escrevo, mas meus versos não tem cadência, minhas rimas são muito pobres…

Escrevo uma linha após a outra, do começo ao fim, de cabo a rabo.

Não há estrofes, nada encadeado. 

Só palavras colocadas lado a lado, coladas em um mosaico imperfeito.

Como escrever poemas se, entre o verso e a prosa, me perco, me abandono e sofro?

Fecho meu caderno, desligo o pensamento e vou cuidar do jardim.

Festa de São João

Estamos em meados de julho e este ano ainda não fui a uma festa junina.

Não que eu precise daquelas calorias todas, mas o clima é muito gostoso e nostálgico.

No ano passado fui a uma delas… Fiquei muito mal impressionada com as músicas. O som altíssimo, um pagode desafinado e eu ali, louca, pedindo para ir embora.

Lembro-me das primeiras festas juninas, quando a rua de paralelepípedos era fechada para se fazer a fogueira bem no meio do quarteirão. Era a festa mais pura, uma lembrança boa da lenha crepitando e o friozinho do sertão mineiro, que pegava leve.

Também me lembrei de outra festa, eu deveria ter 13 -14 anos e aconteceu no pátio de um colégio marista. Eu havia convidado um amigo querido, que conhecera e que sempre encontrava pelas ruas naqueles “footings” tradicionais. 

Era comum que ele me pagasse um sorvete ou uma coca-cola e eu gostava de  sua companhia. Era muito alto, muito magro, muito cabeludo, e sua voz era lamentável. Ele era muito feio! Mas não tinha importância, gostava dele de verdade.

Pois bem, havíamos combinado de nos encontrar na festa e já fazia uns quarenta minutos que eu esperava, tomando um chá de cadeira.  No alto-falante, as músicas eram de primeira qualidade.

” Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João”…

Então ele chegou. E eu fiquei feliz de novo, deixei para lá a melancolia e nos divertimos a valer. 

Ganhei pipoca, amendoim e um beijo.

Décadas depois, agora que me veio essa lembrança querida, só posso constatar que não me esqueci daquele primeiro amor.