Um cotoco de vida

Hoje, quando fui ao correio, encontrei uma pessoa singular.

Um senhor muito bem disposto, bonito e bem articulado que queria passar um telegrama. Chamou minha atenção porque atualmente quase ninguém passa telegrama.

Postava minha carta  enquanto ele ia saindo todo lampeiro. Tive que perguntar:

– Desculpe, mas quantos anos o senhor tem?

Ele se virou para me olhar e disse, olhos nos olhos:

– Essa é uma pergunta proibida. 

Gracejei:

– Só quero saber se o senhor pode mesmo estar na fila especial.

Ele sorriu abertamente e me falou estendendo a bengala.

– Essa é a minha vida; já vivi tudo isso, só falta um cotoco. Por isso estou vivendo plenamente tudo que posso. Recebi um convite  de uma senhora de 70 anos para uma festa em sua casa. Mas o horário não dá para mim. Das nove da noite até uma hora da manhã. Então tive que declinar, por isso o telegrama.

Conversamos mais um pouco, e saímos os dois contentes por esse contato. É isso que é bom na vida!

Quando se despediu, virou-se para seguir adiante, parou e voltou-se para mim mais uma vez para dizer:

– Ah, a idade é oitenta e oito!

 

 

Um telhado novo para a casa velha

Ele nem bem abrira o portão e lá estava ela: O vestido florido mais curto na frente em função da barriga voluntariosa; e enrugado na altura dos peitos que caídos suportavam de permeio um lenço de nariz enxovalhado; as mãos na cintura – caso houvesse ali alguma cintura -, os chinelos desgastados e frouxos nos pés com exuberantes joanetes; e na cabeça um coque desleixado, os grampos pretos espetados a esmo no grisalho do cabelo.

– Onde você estava?

Ele, que chegava com o engenheiro depois de ter passado em uma loja de materiais de construção, surpreso com tanta falta de educação respondeu mal-humorado:

– Fui comprar as telhas!

O engenheiro percebeu  o clima  e se esgueirou para o fundo do terreno; e ficou por lá quieto.

Tratou de juntar as telhas quebradas nos sacos de entulho e depois sentou-se para fumar um cigarro.

O casal continuou se estranhando mais uma meia hora, primeiro aos gritos, depois uma falação barulhenta e finalmente murmuravam.

Depois tudo pareceu em paz.

Não era a primeira vez. Não seria a última. 

O engenheiro deu um muxoxo, balançou a cabeça e concluiu:

” Ainda bem que não sou mais casado”. 

 

 

Comfortably numb

Ela veio buscar fogo e se foi.

Sua  risada continua cristalina como a voz.

Ainda ouço a afinada melodia e vislumbro os dentes poderosos na boca bem feita.

Ela mudou, mudamos.

Há serenidade agora e alguma reserva. 

Reserva? Não, nenhuma reserva. Estamos tão adolescentes quanto éramos.

Fazemos graça, repentes e às vezes choramos juntas.

Ainda lembramos das audições de Pink Floyd no máximo volume e no escuro do quarto; e das calças com uma semana de largura.

A gente se lembra de tudo quase, mas olhamos para a frente.

Vamos escrever mais uma década da nossa história.

Depois eu conto.  

 

 

 

 

Eu, minha mãe, a morte e a morte da bezerra

Dizem que foi por azar; talvez por sorte. 

A recém-nascida ainda úmida, a mãe que lambia a cria.

Era o que minha mãe e eu assistíamos apoiadas lado a lado na janela. 

Entre nós e a outra dupla havia o jardim de margaridas, depois o pátio, em seguida o paiol e mais adiante o curral. 

Desviamos a vista para atentar para a tempestade que se anunciava plena e barulhenta. 

Antes que ficássemos ensopadas, fechamos a janela e ficamos encorujadas a ouvir a chuvarada bater na vidraça. Vimos os clarões, ouvimos os trovões cada vez mais próximos.

A noite fechada, ainda dentro da chuva, nos fez encerrar o dia.

– Boa noite, até amanhã.

Quando clareou, nós duas fomos contabilizar os estragos, e foram muitos…

Mas nenhum tão pungente quanto a outra dupla esturricada e morta, atingida por um raio.

O pescador de ilusões

É meu filme preferido do ator. Uma viagem tensa e inesquecível.

A batalha de Robin contra a depressão e seus outros vícios lembraram-me de uma história que mamãe me contava e que eu sempre pedia:

– Mamãe, como é mesmo aquela história do palhaço?

Ela contava balançando o corpo, se embalando durante a narrativa:

– ” Um dia chegou à cidade um circo vistoso, lindo.

Montaram a tenda e o picadeiro, montaram tudo, enquanto a cidade curiosa observava.

Um bom médico, um clínico geral, certo dia recebeu em seu consultório um senhor, muito, muito triste. Conversaram, o médico o examinou completamente e nada havia que justificasse o aspecto triste e sem esperanças do paciente.

O médico, ao fim da longa consulta, ponderou com seu paciente que talvez ele precisasse se distrair, divertir-se.

Então sugeriu:

– Olha, está na cidade um circo e entre os atores está um palhaço muito engraçado, um palhaço feliz! Vá uma noite dessas e relaxe, deixe-se levar por ele, é realmente incrível sua capacidade de entreter e alegrar as pessoas.

E o paciente respondeu  melancólico:

– Então doutor, está tudo perdido. O palhaço, sou eu”.

As garras da depressão soam fantasmagóricas se desconhecidas. Por certo a cada batalha – e são muitas durante a vida – o paciente entende que já poderia ter feito essa passagem e teria se livrado para sempre do ciclo que não acaba.

Apesar da tristeza e da pena que sinto por perder uma cabeça tão brilhante, estou certa de que agora o Robin está em paz. Não há mais nada a temer. Nada mais a desejar.

 

 

Querida!

Vejo seu rosto sereno muitas vezes, durante todos os dias em que tenho velado por seu sono induzido.

Recordo-me de sua bondade, sua paciência, sua tolerância assertiva. 

E dos bebês todos que teve e carregou no colo maternal e complacente. 

Eu a vejo caminhar com segurança e sua serenidade, e a sua amizade me emocionam.

Acorde, por favor, acorde!

Por tudo que já fez, pela vida plena e rica que teve e tem, volte, reviva.

Estamos todos ansiosos e carentes.

Volte a abençoar suas crianças e seus alunos; seus amigos.

Venha abençoar a vida!

Desculpe o transtorno, estamos em obras!

Difícil construir. Crescer…

E se é para reformar triplica-se a dificuldade. 

Muito bem fazem aqueles que implodem tudo e começam do zero.

Entretanto para quem tem bagagem, para quem tem a perder se tudo for detonado, resta ir devagarinho, um tijolo de cada vez…

E remexer em velharia resulta em encrenca na certa. Não dá pra substituir uma torneira velha por outra mais bonita. É preciso trocar o reparo. Remover o reparo muitas vezes significa trocar o encanamento, o que resulta em trocar um registro de água enferrujado.  Assim chegamos até o sótão onde está a caixa d’água que – você descobre – está vazando e não tem tampa.

 

Ao cuidar da caixa, descobrimos quantas telhas estão quebradas.

A gente diz: 

– Vamos trocar as telhas! 

Mas, não existem mais daquelas para substituir. 

Telhado novo!

E lá se foi o orçamento…

Não adianta apavorar. A ordem é devagar e sempre.

E a vida vai dando um baile em quem quer crescer e transformar.

Assim também é a escrita. Uma palavra de cada vez, tijolo com tijolo.

Depois a limpeza do texto, clarear as ideias e descobrir que é possível criar sim, e transformar, e crescer!

Vejam só como está bonita a minha velha casa, novinha em folha!