Título de eleitor a postos

Na última gaveta do guarda roupas, bem escondido entre as coisas inúteis, encontrei, finalmente, meu título de eleitor.

Tive que encontrá-lo, claro, mas deu um trabalhão. Não venham me dizer que sou desorganizada com documentos; sou, mas prefiro cuidar bem do passaporte e dos documentos do carro, porque ambos garantem meu direito de ir e vir.

Já o título de eleitor, que me obriga, me oprime, me condena, melhor esquecer.

Mais inútil que o título nesta fase da minha vida, só a certidão de nascimento. Há tantas certidões depois dessa…

Bom, peguei o título, joguei fora todos aqueles papeizinhos inúteis que comprovam que votei nas últimas eleições, e deixei tudo arrumadinho para domingo.

Tenho tido uma sensação de compromisso o tempo todo.

Então me lembro do que se trata.

E choro!

Entrangulamento

Havia um estrangulamento acima da média naquele ponto da Avenida das Américas. Sempre muito congestionada àquela hora, estava tudo parado, em um ponto em que se anda relativamente rápido. Era possível ver a aflição dos motoristas dentro de seus carros, olhando para um lado e outro, tentando ultrapassar com a buzina, entupindo o corredor das motos. Caos.

Então apareceu a causa do conflito.

Na grama do canteiro central havia um corpo moço, deitado, imóvel. De costas para a avenida, uma mulher segurava a cabeça do rapaz e sem se dar conta, mostrava a calcinha e as coxas grossas. Todos os motoristas paravam para ver e eu imagino que o nosso fluxo de pensamento era bem mais rápido que o do trânsito.

Estará morto? Ferido? Inconsciente?

Há sangue?

A moça é sua mulher, namorada, amante?

Foi atropelamento, tentativa de assassinato? Suicídio? BRT?

E assim, lentamente, e agora conformados, vamos saindo de perto do estrangulamento.

E cem metros depois já estamos pensando na próxima refeição.

Além de tudo são mineiros!

Tenho um mestre de obras muito especial.

Dessas pessoas que vestem a camisa e investem em seus funcionários, trabalhando junto e pegando pesado.

O tempo todo delega e faz. Uma boa surpresa!

Mas o mais interessante é que ele esteve trabalhando em obras, em Paris, por quase cinco anos, antes de voltar ao Brasil e construir sua família.

Que sorte a minha, que sofisticado, não?!

Bem, ontem precisei falar com ele na hora do almoço e fui até lá onde estavam almoçando. São três mineiros muito mineiros, e eu me sinto  tão em casa…

Quando me aproximei eles pararam para me ouvir. Antes que pudesse falar alguma coisa reparei no que estavam bebendo: Vinho!!!

Achei uma graça!

Já decidi. Quando terminarem o serviço, vou presenteá-los com três garrafas de vinho e três taças bonitas.  Levarei em  conta o custo/benefício da bebida, claro.

Espero que continuem trabalhando bem assim e continuem mineiros.

E que tomem seus vinhos em taças e nunca mais em copinhos de plástico.

Sucesso, rapazes!

Um teto todo meu!

Cuidado, cuidado! Não pisem assim, de forma  tão leviana nas telhas do meu telhado!

Estou aqui na sala e os passos lá em cima me perseguem.

Clonc, clonc, clonc!

Até ouço – acho – as telhas se partindo.

E às vezes, algumas despencam quebradas, lá do alto…

Bobagem, telhas custam quase nada.

Mas essas telhas, essas malditas telhas que me servem de abrigo, não existem mais no mercado…

Você poderia dizer: – Troque todas, bolas!

Não sei o que é mais caro, o soneto ou a emenda do teto.

Sou conservadora, gosto do que tenho, que desperdício seria…

Tempos de reciclagem…

Mas o teto é todo meu!

Faço o que bem entender; avalio prós e contras com minha maquiavélica disposição.

E depois de sair para correr uns 6 km, tomo um banho, uma taça de vinho, e volto para escrever e sonhar.

O telhado é de vidro

Tenho um telhado de vidro.

É só uma chapeleta, o suficiente para clarear a área da cozinha, gosto de ver bem o que como. A não ser mariscos e beringelas – nestes casos fecho bem os olhos.

Agora, nem que a vaca tussa, ou cuspa, ou rosne, nem mesmo assim, aceito que me digam: – Seu telhado é de vidro.

Tenho isso para mim, internamente me aceito, mas que não venham me dizer o que fazer diante das minhas inúmeras fraquezas. Se algum dia for reformar o telhado, haverá ainda uma porção de telhas de vidro. Para iluminar, acreditem.  Para ser perdoada pela luz que entrar e me permitir enxergar o que como.

Inundação

Comprei uma garrafa de água para carregar comigo dentro da bolsa, um hábito de hidratação que tenho faz bastante tempo.

Estava apressada e, caminhando, tentei abrir a garrafa, mas o plástico era mole demais. Agastada, guardei dentro da bolsa, para resolver quando estivesse em sossego.  

Aguardava a hora da minha consulta, com a bolsa no colo e de repente senti minha perna molhada.

– A garrafinha!

Abri a bolsa depressa e estava tudo inundado. Um pequeno lago se formava lá no fundo e todos os documentos, talão de cheque, cartões, celular, batom, além da tranqueira inútil que costumamos carregar , estavam encharcados.

Pedi socorro:

– Vanessa, pode me arranjar um rolo de papel toalha?

Enxuguei como pude, não poderia espalhar tudo ali no chão…

Fui resolver minhas questões com a bolsa pesada e estufada de papel toalha molhado. Pelo menos não pingava mais…

Quando cheguei em casa, joguei tudo sobre a mesa e fui contabilizando os estragos:

O talão, será que os cheques valeriam apesar da borda borrada e em sinhaninha? Os documentos do carro? Ok!

O dinheiro, mole e colado… Estendi para secar.  Recibos e carteira de identidade. Meu Deus, minha carteira de identidade!!!  Ok, graças!!!

Enquanto isso pensava nas milhares de pessoas que todos os anos perdem tudo o que tem com as enchentes. Não é um recibo, nem um talão de cheques. Perdem os móveis, os poucos eletrodomésticos que tiveram condições de comprar. Perdem recordações, fotografias antigas, pequenos segredos que escorrem pela enxurrada devastadora. Tem que começar tudo de novo. Com um agravante: A desolação do mofo nas paredes e no que conseguiram salvar.

Enfim, não foi tão sério assim. Não foi nada sério…

 

Quem casa, consente!

Na festa de casamento há risos e choro; emoção e abraços, e beijos, e cumprimentos.

Há os bem casados, os bem amados e os brigadeiros de farda gourmet.

É doce a alegria compartilhada, a profusão de vestidos de festa, alguns belíssimos e outros mais discretos, sem pretensões de aparecer. 

Há brilho, muito brilho, há muita alegria bêbada; e alguns projetos que ficam debaixo da mesa, um pé direito de sandália pisando no pé esquerdo, enquanto a dona dança descalça em plena felicidade.

Há cacos de vidro, bebida derramada, e os corações partidos de convidados cujo encontro  ainda não pôde acontecer.

Pais, mães, madrinhas, padrinhos, crianças vestidas de bombom, convidados tontos ou melancólicos, tantos, tantos, todos os convidados, vivendo o momento único do próprio casamento que a cada festa se repete.

Ah, quase ia me esquecendo!

Lá estão os noivos! 

Talvez aquele momento compartilhado com amigos e famílias não dimensione o compromisso que pretendem.

Porque o casamento é mais que uma festa. É mais que alegria e casa renovada.

Para mim, o casamento, ainda que não dure, é para sempre!

Aqueles dois se escolheram e traçam o desenho de um sonho como uma constelação no firmamento. 

E eu espero, com o coração emocionado, que esta constelação e a história de sua formação brilhe para toda a vida!