Desencantamento

Todos os  dias, de todas as semanas é tudo igual; tudo do mesmo, o arroz, feijão e brócolis, e uma infinidade de coisas para fazer e resolver, empilhadas sobre a cama de lençóis amarfanhados e sujos.

Já está muito cansado quando levanta,  e toma o café, e escova os dentes enquanto olha lá fora pela vidraça manchada de nódoas e a vida surda lá fora passando inexorável.

Obstinado, abre bem os olhos para acabar de despertar, passa as mãos sobre o rosto, limpando de sua aparência os sinais de luta da noite, de todas as noites, porque a insônia que ocupa seu momento de sonhar  não permite que descanse nem um pouco, e o despertar é só um continuar acordado do mesmo jeito, e deixar-se ir.

Se a medicação ajuda a dormir, também é responsável pela dureza do dia, sempre tão claro, claríssimo, e a falta de atenção no trânsito; e a falta da fome – a premência de quem quer viver e quer continuar.

É um problema sem solução imediata, então atravessa os dias a dormir pelos cantos, trêmulo, arrasado, e sem perspectiva.

Sabe que vai se recuperar  depois de uns meses, lentos meses de outono, uma noite depois da outra, vigiando o amanhecer e o movimento da lua pelo céu, quando existe a lua.

Crescente, cheia, minguante, nova. Crescente, cheia, minguante, nova. Crescente, cheia, minguante, nova. Crescente, cheia, minguante, nova…

E quando, finalmente, não há mais a necessidade premente de vigiar o amanhecer, porque  o mundo continuará em sua toada de boiadeiro infinitamente, e independente dele; quando pode enfim virar-se de lado e desistir de presentir o fim dos tempos, relaxa, e depois de uns xingamentos, dorme e sonha com a água cristalina em movimento.

Está salvo! Mais uma vez.

Arrastando correntes

outono

 

Ontem, segunda feira, depois de um fim de semana sem entrar no computador, voltei animada para os meus escritos sobre fantasmas. Eram quase vinte mil palavras e o momento era crítico.

Estou usando um Mac, emprestado do Miguel enquanto meu PC está na CTI.

Pois bem, depois de ter preparado minha limonada, abri o computador e fui ao pages abrir o arquivo.

Meu fantasma havia desaparecido.

Procurei até debaixo da mesa, evaporou! Procurei na lixeira, no histórico, em minha xícara de café.

Chorei, chorei muito. Era o trabalho de duas semanas e eu não me lembrava do que já havia escrito. Foi como um abortamento.

Encontrei um pedacinho, umas três folhas que tinha enviado para a Renata, minha fiel escudeira.

Desanimada, muito triste, recomecei, mas estava bem difícil.

Depois da caminhada com o Miguel no fim da tarde, depois do jantar e já dispostos em frente da TV para assistir nosso seriado favorito, morta de vergonha, decidi contar a ele minha triste sina.

– Não é possível, tem que estar lá!

– Não tem nem rastro!

– Deixa eu ver, pega lá o bruto.

Ele entrou no Mac, procurou e procurou e nada.

Estava quase desistindo também quando se lembrou que havia se instalado na famigerada nuvem.

Sem esperanças segui as instruções para entrar.

Meu bebê estava lá! Solitário e esmaecido, mas completo, resgatado.

Tratei de salvar o arquivo em pelo menos três pen drives.

E agora, depois desse susto, sinto mais profundamente o personagem porque percebi que ele pode me pregar peças, como todo bom fantasma.

De qualquer forma, estou nas nuvens!

 

O mantra

Ela disse que não gosta de tomar partido e que frequentemente exala alguns mantras para se acalmar antes de sair quebrando tudo.

Hoje, acordou indignada. Pensou:

“Nossa, parece que tive um pesadelo, as águas todas represadas desabaram sobre mim  e me afoguei”.

Sacudiu a cabeça, desistiu de pensar no assunto e foi tomar um banho, usando a água com parcimônia. Fechou a torneira enquanto se ensaboava. Já havia desligado o pressurizador fazia mais de um mês, e o banho era chocho; saudades daquela ducha forte e revigorante.

Era dia de supermercado. Foi lá.

Escolheu com cuidado – o tal do custo-benefício – e saiu com o carrinho cheio, compras para um mês; a inflação…

Enquanto colocava as sacolas no bagageiro, de forma organizada, ouviu uma buzina.

Piiiiiiii, piiiiiiii.

– Será que estou fazendo alguma coisa errada?

Nada disso, apenas um idiota apressado esperando a vaga.

Fechou com força a porta do bagageiro e foi até lá:

– Está buzinando para mim?

– Sim, anda logo com isso!

– Seu filho da puta, quer parar de me encher o saco?

E daí por diante….

Faça o favor

Eram sete horas da noite, horário de verão. Ele vestia uma camisa listrada e saiu pela janela, fugido.

Todos em casa dormiam.

Telefonou para sua amada e quando a última ficha caiu, avisou.

– Estou indo. Nem se Deus mandar, nem mesmo assim, deixarei de vê-la hoje!

Foram suas últimas palavras.

Atravessou a rua com seu passo bêbado.

No rádio do coletivo ouvia-se a música:

– A gente morre, a gente morre, no BRT.

Juntou muita gente. Os curiosos.

Estava lá, o corpo, estendido no chão.

Sirenes, ambulância, massagem cardíaca.

A morte, angústia de quem vive.

O fim daquele caso de amor.

Era madrugada e o médico legista, na padaria da esquina, depois do laudo final exclamou:

Seu garçon, faça o favor.

Cinza-claro cintilante

Quando o Pintor resolve tingir o azul celeste de cinza claro cintilante, e é preciso franzir a testa e semicerrar os olhos para se enxergar, deve-se voltar ao ninho e procurar calor e conforto nas entrelinhas do sonho.

A dor desabusada que surge duramente não permite que se fale, cante ou ouça música.

Tempo de contenção e cuidado.

Olhe para trás, olhe para os lados.

Há andorinhas alvissareiras e outros pássaros.

Das inflorescências, folhas secas se abandonam.

Não tenha pena, as folhas viveram do princípio ao fim.

Conforte os pequeninos que ainda transitam no cinzento-lama.

Eles começaram e ainda não sabem para onde vão.

Quem sabe?

E-books!

Apesar do calor e da falta de chuva, lugar comum nas conversas de hoje em dia, prefiro falar das nuvens e raios e para-raios das leituras do fim de semana.

Em um processo sem volta de paixão absoluta e para sempre, logo após ler a resenha de um e-book e receber a indicação  de outro, através de minha irmã, e sobre assuntos tão diversos quanto cinzas e minorias com deficiências, comprei os dois.

Menos de dez minutos depois já devorava um e namorava as páginas virtuais do outro.

Na falta do cacique Cobra Coral, o fim de semana teve que ser uma viagem controlada e nem por isso menos impressionante.

Alguém famoso disse certa vez que uma viagem internacional valia por uma faculdade.

Neste fim de semana, sem sair de casa e às voltas com meus livros digitais já posso receber meu diploma de um proveitoso MBA à distância.

Peixes fora dágua

Quem já teve um aquário, sabe o trabalho que dá. A manutenção é cara, e os peixes são frágeis,  sensíveis às alterações de seu mini mundo.  Mas é lindo ver um aquário bem cuidado, iluminado, a vida dentro dele carregando nossa imaginação. Acalma, conforta, inspira.

Eu já tive os meus…

Ontem, soube que os peixes do aquário de um bom amigo estavam morrendo. Comiam e “cuspiam” fora, depois nadavam de lado e em pouco tempo estavam mortos.

Aconselhei que procurasse um especialista.

Hoje ele ligou para contar o desenlace.

Colocou os peixes em um balde para poder desinfetar o aquário. Limpou muito bem, lavou as pedras e os enfeites e depois de muito trabalho, decidiu tomar uma cerveja e descansar antes de devolver os peixes para o ambiente renovado.

Na volta da cozinha,  encontrou sua poodle com o último peixe na boca – um limpa-vidro – a essa altura já sem o rabo. Os outros peixes jaziam “amortecidos” no chão molhado.

Enfim, é a natureza, a vida, a morte.

Cada espécie faz o que tem programado para fazer.

Que tragédia!