Hospital

Era a febre. E a dor de cabeça. Tonta, levantou-se e foi até a cozinha, pegou um copo de água e tomou um comprimido de novalgina. Tinha certeza de que tinha as gotas, mas onde? Sentiu a garganta arder e engoliu, fechando os olhos. Passou a mão no cabelo ensopado de suor. Tomou café e voltou para o quarto. Deitou-se e apagou por mais uma hora. Ao acordar,  mediu de novo a temperatura; 37 graus. Guardou o termômetro de mercúrio com muito cuidado, não fabricavam mais, era uma relíquia. Auscultou-se – coração e pulmão. Taquicardia, uns chiados e roncos. Com um suspiro, voltou à cozinha, tomou seu prosaico café com pão e manteiga, contraindo o rosto a cada vez que engolia e foi tomar seu banho. Era hora, não havia como fugir da rotina.

Pegou a maleta e foi para o hospital, trabalhar.

Pingo

Atrás da porta da cozinha, havia uma figa de madeira e um relicário, presos em um prego grosso e cabeçudo, que quando batia na parede, cavava um buraco cada dia mais fundo. Dentro do relicário, havia  uma coleira vermelha com  um gancho de metal, única lembrança de um cachorro perdido no tempo de maneira muito violenta. Quando havia vento, o gancho batia na porta e provocava um barulho de pingo de água na pia. Quando não havia vento, também… Por isso teorizei que o cão se comunicava, em morse ou qualquer outro código; binário? Sempre que ouvia aquele telectec  levantava depressa para fechar a torneira – a água, o desperdício. Aperta, que aperta e o ruído continuava – tectelec. Pensei em jogar fora aquela triste memória, mas me ocorreu que o Pingo estava se manifestando de sua vida do além, e que seria um desastre se eu desistisse dele. Acostumei. E agora, quando ouço o ritmo sei que é uma visita. Então me sinto segura e em boa companhia.

Montanhas

Às vezes sinto falta de montanhas, daquelas que não escondem o mar atrás de si, mas que escondem outras montanhas e vales, outros vales.

Minas Gerais, quando não é de uma retidão invejável, se dobra e desdobra assim, como  lençóis depois de uma noite de amor. Há nascentes, riachos, a água cristalina e encantadora – canto de sereia. E as árvores, de exuberante e diversa natureza, algumas a se olharem no espelho d’água, cientes de sua majestade; e outras que parecem pedir que as levem como a flor de um poema de Gonçalves Dias.

Comovida e saudosa , o jeito é vestir à praiana e ir ver o mar. Santo remédio para a nostalgia.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

Girinos…

– Juro por Deus!

– O que é isso, menino, quanta lorota!

– É verdade, mãe, os girinos viraram sapos!

– Em minha caixa d’água? Não estou acreditando…

Angela pôs as costas das mãos nos quadris e olhou para o céu. A caixa não tinha tampa, e os sapos coaxavam na madrugada, mas teriam sido mesmo os girinos que o moleque pescara com seu coador no fio de água da beira do hospital infantil? Lamentava-se muito mais pela procedência – os miasmas do hospital deveriam drenar para aquele córrego – do que por saber dos sapos em si… Arregalou bem os olhos quando imaginou como o filho teria escalado pelos canos até chegar nas alturas acessando a água que servia à família e aos fregueses da quentinha que fornecia aos trabalhadores da região. Todo mundo comentava, “a quentinha da dona Angela é a melhor da cidade, que tempero!”

Sentou-se no primeiro degrau da escada, pesarosa. Pensou bem e concluiu balançando a cabeça, a boca contraída:  – O que não nos mata, nos torna mais fortes. Levantou-se e continuou a viver. Encheu a chaleira de água e acendeu o fogo. Hora de cozinhar o arroz.

Ah, Manoel…

Está escrito! Nasceu, tem que morrer..

Uma pena, Manoel, iluminada criatura dos versos. Está certo que viveu bastante e nos trouxe muita alegria poética. Construía com leveza e acho que usava chantily entre os tijolos. Tudo tão doce e saboroso… Gostava tanto das surpresas, e das soluções inusitadas que desenvolvia em seu versos…

Quero encontrá-lo outra vez, na matéria ou fora dela. Vamos dar um giro pela via láctea a bordo do cometa Churyumov-Gerasimenko?

Memórias 4

Meu pai comprava todas as novidades e inventos que surgissem pela cidade. Chegava em casa feliz, querendo agradar, e às vezes pagava caro por isso. Por um lado, na maior parte das vezes pensava grande, então comprava a vitrola recém chegada ao mercado, a maior e a mais bonita e poderosa para agradar suas filhas musicistas. Por outro lado, levava uma bela bronca da Dona Elvira, que controlava as despesas economizando até centavos para um doce, porque a vida era muito bicuda mesmo, e ela sabia disso. Passava uns dias brava com ele, mas era resiliente e tocava adiante, sempre e sempre.

Papai adorava passarinhos e certa vez teve um pássaro preto que agia como um cão de guarda. A qualquer sinal de visita, ele, que ficava em sua gaiola no alpendre, emitia um som característico. Era batata! Daí a instantes a campainha tocava!

Papai também gostava de cachorros, mas tinham que viver muito próximos e dividir a cama com ele.  Isso era outra novela. Porque mamãe não queria nem saber de bicho dentro de casa, no máximo o gato que minha irmã mais velha ganhara do namorado. Era complicado…

Gostava muito de pescar – todos os sábados saía de madrugada com os amigos e voltava ali pelas sete horas da noite, com peixes variados que mamãe precisava estripar e limpar. E caçava às vezes. Também gostava de cerveja, a grande vilã desta história de amor incondicional e para sempre.

continua