Memórias 2

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Ela costurava também.  Era mulher multimídia, muito antes do seu tempo. Fez cinco vestidinhos para mim e adorava contar que eu ficava linda com aquele com o pato Donald estampado da frente. Lembro-se de um vermelho com sinhaninha branca no decote careca e de outro cheio de casinhas pintadas à mão por ela, com um amor que eu ainda não compreendia. Nas fotos em preto e branco daquele tempo, eu era uma meninazinha comum, que adorava o irmão mais velho e dependia dele emocionalmente.

Minha mãe usava um quarto pequenino para costurar, e era comum ouvirmos do jardim, sua lida com o pedal, e as linhas, e agulha de sua máquina Singer.  Ela própria era uma máquina de coser, e rápida, e eu ouvia com certo temor o barulho incansável: rararararararrararararrararararara. Acontecia de o ruído desaparecer por uns instantes, quando imaginava que estaria cortando a linha com os dentes – na falta de uma tesoura à mão.

Mas aterrador era quando depois de um intervalo de silêncio ela exclamava zangada:

– Ai, meu Deus, acabou a linha da canelinha!

Eu me sentia responsável por aquela imperdoável falta de linha. E eu a via através da porta conferindo a costura que mostrava os furos feitos pela agulha sem a linha à preenchê-los. Para ela, cujo tempo era precioso demais, todo desperdício era uma lástima. Nada que durasse muito; ela imediatamente recarregava a canelinha e tocava em frente com a mesma tenacidade.

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