Pingo

Atrás da porta da cozinha, havia uma figa de madeira e um relicário, presos em um prego grosso e cabeçudo, que quando batia na parede, cavava um buraco cada dia mais fundo. Dentro do relicário, havia  uma coleira vermelha com  um gancho de metal, única lembrança de um cachorro perdido no tempo de maneira muito violenta. Quando havia vento, o gancho batia na porta e provocava um barulho de pingo de água na pia. Quando não havia vento, também… Por isso teorizei que o cão se comunicava, em morse ou qualquer outro código; binário? Sempre que ouvia aquele telectec  levantava depressa para fechar a torneira – a água, o desperdício. Aperta, que aperta e o ruído continuava – tectelec. Pensei em jogar fora aquela triste memória, mas me ocorreu que o Pingo estava se manifestando de sua vida do além, e que seria um desastre se eu desistisse dele. Acostumei. E agora, quando ouço o ritmo sei que é uma visita. Então me sinto segura e em boa companhia.

3 comentários sobre “Pingo

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