Hipertermia

Maria saiu tarde hoje, e no jardim em frente a casa encontrou um bem-te-vi morto. Estacou, curvou-se ligeiramente para a frente e firmou a vista. O que teria acontecido?   Não havia mais gatos em casa… O cachorro era grande e estabanado demais para caçar… Teria sido um chumbinho perdido? Com o pé cutucou o passarinho e o virou do outro lado. Formiguinhas se alvoroçaram, em rota de fuga. Maria entrou em casa, pegou papel absorvente e delicadamente catou o bicho. Procurou sangue, alguma asa quebrada, qualquer coisa que pudesse dar notícias de antes da morte. Nada. Suspirou, embrulhou o morto no papel e descartou tudo na lixeira.

Enquanto dirigia para o trabalho ainda pensava sobre a morte do pássaro:

– Deve ter sido insolação, hipertermia; ela pensou assim… E sentiu muita tristeza ao imaginar que muitos outros pássaros estariam morrendo por nosso descaso com a natureza.

Pássaros, gatos, cachorros, bichos-preguiças, tatus e capivaras… E crianças também…

Torcer o pepino

Decidi criar um personagem otimista e confiante.

Um menino, claro, que teve uma infância feliz. Lindo, loiro, olhos azuis! Não, menos… cabelos e olhos castanhos, nada de fugir do padrão. Agora penso que é melhor que seja uma menina, para não fugir do padrão. Para ser digna de que contem sua história, é bom que haja conflitos… Uma menina mártir; vai se chamar Joana!  Ocorre que ela sofreu abuso do tio avô, um velho lascivo. Mas ela deu um jeito! Saiu de casa novinha e foi ganhar a vida em outra cidade. Começou um curso de manicure, aprendeu a tirar cutícula com esmero, trabalhou, trabalhou em um salão de bairro. Até conhecer Maria, o grande amor de sua vida, que a inicia nas drogas. Ela parte para o tráfico, vira mula. Mas aparece um soldado de ouro que salva a mocinha do inferno e ela se redime. Vai pro convento; (ainda existem conventos?) e ali tem seu filho bastardo, que na primeira infância  morre afogado…

Droga!

Muamba

Não sei se sou a favor da pena de morte, mas com certeza sou a favor do livre-arbítrio. Considero que um rapaz que decide levar droga no meio da tralha, para um país que penaliza o “delito”- parece coisa pequena em função do sufixo – com pena de morte, é no mínimo um suicida. E suicidas também se arrependem…

Resta saber se ele teria se arrependido caso houvesse conseguido trafegar com a muamba. Acho que não…

Romantismo

Neste ano não vamos brincar no carnaval. Não que faça muita diferença, em geral não brincamos mesmo, ficamos vendo a paisagem pela janela da TV.  Comentamos sobre uma ou outra bunda vistosa ou com celulite ululante – ou seria pululante? Os peitos daquela moça, o vexame do apresentador que troca os nomes dos destaques,  a falta de chuva, o desfile da imperatriz…

Depois vamos dormir exaustos de tanta vista, o cérebro processando samba enredo e uma profusão de bobagens.

Assim descansamos antes de começar o ano de verdade, para  repetir sem alento todos os outros dias de todos os outros anos de todas as outras décadas.

Aqui e ali um acidente de percurso, multas, impostos, uma nova criança na família, e quem sabe uma pitada de romantismo: ” Vamos ver o por-do-sol?” Aceito o convite;  e vamos!

 

Reparo da preguiça

Às vezes, de pura preguiça, preciso  que alguém gire a manivela do motor para eu começar o processo de viver o dia.  Não estou muito a vontade com a minha preguiça. Por isso basta uma interjeição bem colocada e eu pego no tranco.

Ontem aconteceu assim. Quando tomei coragem, subi em um salto nude, vesti uma roupa leve e  fresca, e saí para o shopping toque-toqueando com meu sapato estilo Kate Midelton. Resolvi algumas pendências, fiz umas trocas de roupas, usei meu bônus de dez por cento por ser o mês do meu aniversário, busquei meu liquidificador que estava em  reparos -“não triture gelo com ele, dona..”

Mas  queria mesmo e  preciso  de um calendário, desses com uma bela foto por mês e os dias  separados em quadradinhos, com tamanho bom o bastante para fazer as  anotações fundamentais do ano. O único que encontrei era com imagens do pequeno príncipe e eu ando em um humor mais para a revolução dos bichos.

Entre as vitrines reparei em minha triste figura no espelho… Não, não estava com o poder dos saltos que imaginava. Da próxima vez que sair, vou me fantasiar..

De mulher maravilha….

O Marcos

Eu o pegava pela mão e ia passear nas vizinhanças, nas tardes de domingo de Jovem Guarda na TV.   Achava muito aborrecida aquela cantoria e minhas irmãs fechavam as janelas  da sala para assistirem, e enquanto elas ficavam ali na penumbra,  saíamos os dois em pleno sol, para ouvir as cigarras e encontrar uns bichinhos e florezinhas pelo caminho.

Foi uma criança linda, expressiva e determinada. Hoje é um adulto expressivo, determinado, engraçado e, a seu modo, lindo!

Brincava sozinho debaixo da mangueira, horas a fio, e tomava longos banhos cantando a plenos pulmões, num tempo em que ainda não havia falta de água. Hoje é econômico nos gastos do precioso líquido então toma duchas rápidas e eficientes. Não sei se ainda canta no chuveiro. Mas  gosta de cantar e acompanha as músicas do som de seu carro com muita afinação.

Ele segurava vela quando comecei a namorar, será que alguém ainda se lembra dessa expressão? E quando me casei carregou minhas alianças, portanto devo também a ele o sucesso do meu casamento.

Depois que mudei para São Paulo, a gente se afastou bastante, pelas contingências mesmo da vida, cada um seguindo seu curso. Mas como acontece com todos os irmãos de verdade, nossos caminhos se entrecruzam, então temos tido muitas oportunidades de nos divertirmos juntos. Damos risada, bebemos e depois falamos mal da vida, que nos deixou tão órfãos.

Tenho muitos bons motivos para seguir em frente, e um deles, um dos mais importantes, é tê-lo por perto nesses tempos de internet: a reclamar da telefonia, a contar piadas, falar palavrão, e abraçar apertado, abraço de urso bem intencionado. Para ele, basta o mel.

Que pena, meu Deus!

Dois dias antes de morrer, ela olhou diretamente em meus olhos de sua cama de CTI. Olhou-me tão profundamente… queria dizer alguma coisa, mas o que teria sido? Havia angústia, urgência e tristeza em sua mirada…

Choramos muito, as duas,  naquela espécie de visita agônica;  eu chorava pela dor de vê-la penalizada ali, chorava porque sabia que ela compreendera que não tinha mais jeito, que precisava desistir e que morreria.

Naquele instante, tentei mergulhar em sua pupila para chegar à retina e decifrar a criptografia de seus neuronios. Sinapses complexas demais, não pude compreender. Voltei lá de dentro dela para analisar seu rosto, e então sua iris cinza-azulada tão comum aos idosos fechou-se definitivamente para mim.

Voltei para a casa que era dela, agora tão vazia, mas ainda com seu cheiro e seu jeito de ser.   Com sua imagem tão dolorida nítida em minha cabeça,  prometi que  haveria de tentar entendê-la  mais uma vez.

Mas, no dia seguinte, ela havia perdido a consciência. Não estava mais ali o seu olhar tristonho; seu rosto era severo, compenetrado, febril, e seus olhos semicerrados pareciam  voltados para dentro, em um caminho sem volta para nós, que a amávamos tanto.

Senti que ela havia superado o sentimento de perda de si própria. Já estava acima e além de sua natureza. E eu já podia relaxar e chorar convulsivamente, sem consolo. A partir daquele momento a perda era toda minha.