Que pena, meu Deus!

Dois dias antes de morrer, ela olhou diretamente em meus olhos de sua cama de CTI. Olhou-me tão profundamente… queria dizer alguma coisa, mas o que teria sido? Havia angústia, urgência e tristeza em sua mirada…

Choramos muito, as duas,  naquela espécie de visita agônica;  eu chorava pela dor de vê-la penalizada ali, chorava porque sabia que ela compreendera que não tinha mais jeito, que precisava desistir e que morreria.

Naquele instante, tentei mergulhar em sua pupila para chegar à retina e decifrar a criptografia de seus neuronios. Sinapses complexas demais, não pude compreender. Voltei lá de dentro dela para analisar seu rosto, e então sua iris cinza-azulada tão comum aos idosos fechou-se definitivamente para mim.

Voltei para a casa que era dela, agora tão vazia, mas ainda com seu cheiro e seu jeito de ser.   Com sua imagem tão dolorida nítida em minha cabeça,  prometi que  haveria de tentar entendê-la  mais uma vez.

Mas, no dia seguinte, ela havia perdido a consciência. Não estava mais ali o seu olhar tristonho; seu rosto era severo, compenetrado, febril, e seus olhos semicerrados pareciam  voltados para dentro, em um caminho sem volta para nós, que a amávamos tanto.

Senti que ela havia superado o sentimento de perda de si própria. Já estava acima e além de sua natureza. E eu já podia relaxar e chorar convulsivamente, sem consolo. A partir daquele momento a perda era toda minha.

3 comentários sobre “Que pena, meu Deus!

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