Dos tempos que já lá vão…

Faz muito tempo, tempos de Jalavão, existiu essa mulher tão forte, de ascendência italiana e natureza obstinada. De compleição robusta, Dona Rosalinda era um primor na cozinha; fez até um livro de receitas manuscritas que encantava todo mundo. Quase era possível sentir o cheiro bom da comida na leitura da receita; quase impossível resistir aos sabores e seus temperos muito bem combinados, na hora da refeição.

Contam que certa vez, essa mulher tão forte de caráter e boníssima de coração, mandou trazer um monte de terra para incrementar seu jardim também primoroso, e que ela cuidava com a mesma dedicação dispensada aos seus temperos.

Quando o caminhão despejou a terra preta, fértil, farta de húmus, no passeio de sua casa, um vizinho prometeu ajudá-la a transportar a carga para o jardim propriamente dito, que ficava a uns bons dez metros da rua. Mas, no momento iria viajar e lhe disse que esperasse sua volta para daí a três dias.

Quando o vizinho voltou, viu que a terra não estava mais no passeio, a essa altura limpo, varrido e lavado, por Dona Rosalinda, que por acaso estava perto do portão.

– Dona Rosalinda, por que não me esperou? A senhora carregou tudo sozinha?

E ela tranquila respondeu: – Sim, um balde de cada vez.

Chore-se completamente

Quando você puder chorar, deságue-se. Transforme-se em líquido, escorra. Chore sem moderação, grite até! Às vezes, só dessa forma há consolo. Uma consolação. Tome um banho tépido e se misture nas gotas, como quem chove ou delira. Não, não faz mal delirar, é permitido. Tudo é permitido na convalescença.

E para não ficar assim tão triste outra vez, concentre-se na tela do filme Vida-Muda. E plante. Um jasmim,  alecrins, hortelãs… Porque tudo é assim mesmo, transitório. E é melhor estar transitando do que plantado, parado, morrendo.

 

 

Vitamina D

Dia de sol pleno. Saí cedo, sem protetor solar, para garantir minha dose de vitamina D. Fazia tempo. Lá fora a claridade feriu meus olhos, mas depois me acostumei e vi o mundo. Tudo igual…ou pior. Dei-me conta de que não vi passar as festas de fim de ano, e nem janeiro, nada. Já estamos em dois mil e quinze? Puxa!!!

De volta à casa, bebi dois grandes copos de água. Que coisa boa!

Amanhã, vou ver o mar. Estou certa de que ele está lá no mesmo lugar de sempre, murmurando…

Luto

Traidores! Como vão-se embora assim, antes do fim da festa? E ainda saíram à francesa!!!

Não havíamos combinado  uma vida plena e produtiva, para que pudéssemos compartilhar com nossos netos juntos, todas as aventuras e estrepolias de nossa mocidade?  Combinamos de envelhecer com a mesma saúde que pudemos proporcionar aos nossos pacientes, uma dádiva bem merecida para nós que trabalhamos tanto e nos envolvemos tanto.

Compartilhamos dúvidas, certezas, promessas; compartilhamos o travesseiro quente do beliche do quarto dos plantonistas, quando nos revesávamos nas madrugadas…

E agora, o que faço com o tempo que tenho pela frente, o que vou fazer agora com tudo que sobrou de nós em minha memória?

Tão cedo ainda, amados, tão cedo para partir…

Por que me deixaram aqui?

Eis aí meu carnaval

Vi, de relance, em um espelho ocasional, um palhaço. Era o Bozo. Sorri sem graça e ele me devolveu uma sonora gargalhada. Apreensiva, desisti da fantasia e dos confetes.

Quando cheguei em casa, em frente ao meu espelho habitual, retirei toda a maquiagem e lavei o rosto com capricho, mas sem entusiasmo. Deixei que jorrasse a preciosa água nesta minha ostentosa ablução. Enxuguei cada prega do rosto, estiquei as rugas e sequei meus olhos.

E me encarei no espelho.

Bozo estava lá e desta vez me olhava contrariado, o batom manchando parte da bochecha direita. Ele me disse assim:

– Vamos parar com essa palhaçada?

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Escuta…Vamos deixar isso para lá, larga mão! Hoje é terça feira ainda e todos os funcionários trabalham regularmente, os pontos de ônibus tem filas intermináveis onde é possível ver gente de todo tipo, até gente bonita.

Para acabar logo com isso, almoço enquanto ando, janto enquanto vejo as bobagens que nos enfiam goela abaixo pela tela da TV.  Assim quando chegar a hora de realmente viver, aproveitar, a hora não passa, não passa, não passa.

Vou dar um tapa na louça empilhada na cozinha. Melhor ir devagar bem devagar, assim está o tempo do meu relógio interior.

Bem devagar.