A bola da vez

Eu sou a bola de futebol, no meio do campo e espero o apito e o chute inicial para sair da inércia. Depois vou rolando pelo campo: tonta, pronta, mágica, reticente, entre os camisas vermelhas e pretas. Em um chute esplêndido alcanço o almejado alvo: Gol! Quem marca delira, quem não defende chora. Ao fim da pelada fico por ali dolorida e estática.

Um elefante vem brincar comigo, chutar e alegrar uma plateia risonha. Mas ele erra e me pisa.

Pluft!

Ruídos

Sou extremamente sensível a qualquer tipo de ruído.

Televisão? Melhor sem o som. ou desligada, claro. Vídeos na internet também – “mode – mudo”. Cortador de grama, ventilador, rolinhas arrulhando, crianças brincando no parque, mosquitos. Inquietante, desesperador. Meu ouvido que escuta amplia e distorce os sons mais queridos, tudo vira ruído.  E de onde vem? Nunca sei… de toda parte e de parte alguma. Até o mar me incomoda às vezes, mesmo que o movimento de ir ao encontro seja meu. Desligue as ondas, oceano?

Mas existe um tipo de barulho que me emociona: Minha família reunida, com churrasco, cerveja e abraços! Muitos abraços, piadas e riso, gargalhadas. Tantos irmãos, e todos falam ao mesmo tempo, os assuntos mais diversos e eu me desespero por não conseguir acompanhar todas as conversas.

Espero que a gente se encontre muitas vezes ainda, todos os anos, todos juntos. Para matar a saudade e o silêncio.

 

Presente

Você deveria ver o céu que preparei pra você, assim orgânico, nebuloso e farto de nuvens fartas e sorridentes. A ideia era fazer um bolo ou algo comestível, mas ando pouco a vontade com comidas e cozinhas.

Por isso peguei das tintas do sótão e caprichei na paisagem, toda ela muito visceral e movimentada. Quase creio que ela mudará de figura conforme os ventos. Ou que choverá completamente enquanto eu estiver dormindo.

Se tomarmos a chuva como um manifesto, saiba que obtive sucesso considerável. Chove aos borbotões. Mas o quadro, minha bucólica paisagem com nuvens, se manteve impassível. É assim que tem que ser.

Agora só existem memórias da tela branca, imaculada, implorando por cores e traços. Ela já teve sua primeira vez.

Risada

Adoro quando você dá risada, menina, adoro! Cristalina risada que me anima e protege. Basta isso para que floresçam rosas e jasmins. O suficiente para iluminar minha semana e tornar melhor comer, beber, viver.

Vamos assistir juntinhas umas comédias de estilo. Para que eu possa encher minha caixinha de Pandora de esperança e alegria. Assim economizo chorares e suspiros. Assim economizo e aplico no banco para ter uma reserva.

Venha dar risada, menina, que preciso tanto!

Esquentando os tamborins

Ela chega amanhã! Então preparo os tambores, os tamborins e a cama. Tudo pronto, fico aqui esperando, um minuto de cada vez. Ela não tarda a chegar, mas sempre tem o antes. Vou me distraindo com uma arrumação aqui, uma delicadeza aqui e muita  expectativa.

Amanhã quando ela chegar, vamos falar e falar. Assuntos? Intermináveis. Lembranças todas, as boas para dar risada e as outras para chorar só um pouquinho…

Pode? Pode sim, tudo pode. Mas sem exageros.