Meu irmão e o bebê da Kate

Hoje é um bom dia para se nascer, bebê real! Meu irmão mais velho chegou nesse dia 29 e é adorado por todos. Também passou da data, e surgiu com cinco belos quilos. Este sim, foi um bebê imperial. Mamãe costumava dizer que ele nasceu depois de dez meses de gestação. (Depois foi minha vez de crescer naquele casulo quentinho, e como sempre fui meio aflita, cheguei com pressa.   Estava predestinada a “acabar logo com isso”).

Este meu irmão tem uma calma, uma alma tão linda, uma risada larga, um farto sorriso. Exemplo para mim e para todos os seus amigos, que são tantos… Tomara querido, que você ainda tenha muitos bons momentos para compartilhar. Eu adoraria tê-lo bem perto de mim, o tempo todo. Enquanto passo meu tempo aqui, em minha casa, entre tudo que tenho, você viaja no jatinho do tempo pelo Brasil esbanjando alegria e dividindo seu amor e alto astral.

Vamos beber juntos a sua saúde?

Brownie

Fui pra cozinha! Criar um brownie todo meu! Lá fui eu, fada-madrinha incorporada.  Salagadula, mexegabula, bibidi-bobidi-bu. Junte isso tudo e teremos então Bibidi-Bobidi-Bu!

Peguei uma receita de uma amiga e inventei. Troquei o nescau por chocolate amargo, a manteiga por margarina, o açúcar por açúcar mascavo, em todas as combinações possíveis,  mantive apenas as proporções básicas. Coloquei figo seco, avelãs, damasco, uva-passa.   Ousei experimentar fazer um “blondie”com tapioca. Deu tudo errado. Meu freezer tem um monte de “brownie”  congelado… acho que só vai dar pra comer bem picadinho com sorvete.

Voltei para a receita básica tradicional. Caprichei nas medidas e na sequencia de adição dos ingredientes. Fiz tudo bem direitinho, apesar de intimamente estar doida pra enlouquecer na criação. Contive meus ímpetos, misturei bem misturadinho, coloquei no forno pré-aquecido por meia hora, e …deu certo!!!! Ficou lindo, cheiroso, delícia! Acho que seria uma aprendiz de feiticeira medíocre… Mas não faz mal. Vou fazer o tradicional mesmo. Ou então, claro, mudar um ingrediente de cada vez. Pelo menos vou saber porque deu errado. Certo?

Depressão

Sobre o casarão, nuvens densas, cinzentas, baixas. O céu inexistente, sol apagado. Quando entro sinto, pressinto, a tristeza infinita, e os pequenos seixos frios e inúteis parecem cravados,  enervados e imóveis pela terra do jardim. A casa toda está fria, escura, silenciosa. O cachorro levanta para mim seu olhar aflito, depois deita as mandíbulas sobre as patas dianteiras e me segue com os olhos, até que entro pela porta da cozinha. Frio… Do quarto do casal, a escuridão redobrada e o silêncio, a dor faísca como um coração que bate tum,tum,tum.

Preparo o café e ponho a mesa para ele, que sorve a bebida devagar, cabeça baixa. Pego a vassoura, os panos, o lustra-móveis; abro as janelas da sala, ventilo e limpo cada canto, e cada canto está sujo ainda, e triste, ausente. Há sombras e mais sombras sobre as sombras, nenhuma luz emana do quarto dolorido, trágico.

Volto aos meus panos, e respiro procurando calma e a solidariedade que posso oferecer. Depois de dezoito anos a conviver com essa tragédia anunciada e com previsão de tempo para acabar, aceito o inverno, o inferno. E assim continuo, varrendo e varrendo, todos os dias, sem descanso.

Então, em uma manhã qualquer, quando abro o portão, o cachorro abana o rabo numa felicidade muda. A mesa do café já está posta e o café gorgoleja na cafeteira elétrica. Enfim!

Ela está fora do quarto, magra, abatida, mas há uma gota que brilha em seu rosto. Está muda mas posso ouvir: ” Agora está tudo bem!” E dia após dia, ela só melhora. É como se subisse a escada do porão em direção ao sótão. Umas  semanas depois, ao entrar pressinto a risada cristalina e fácil. Ela está de volta! Ela está viva e alegre. Ela se diverte.

Pego a vassoura e os panos e agora toda sombra se transforma em luz e há penumbra; há detalhes de cor antes tão esmaecidos.

Vou varrendo e varrendo, mas agora estou também muito feliz.

O telefone

Eram duas horas da manhã. Acordei com o telefone tocando. Meu Deus, catástrofe! Em um átimo, passei em revista todas as pessoas queridas; e fui atender.  Deu tempo de pensar que não me  telefonariam às duas da manhã – me consolei assim -, esperariam até amanhecer.

– Alô! – Falei com a voz bem firme, o corpo tenso, trêmula.

– Mãe, é um assalto… É um assalto, mãe, eles vão me matar!!! – A voz choramingava e arfava.

Engoli e pensei “calma!”  Então perguntei:

– Filha, qual é o seu nome?

A voz enrolou: –  Mãe, é um assalto, mãe, eles vão me matar… Socorro!

– Como você se chama?

– Sou eu, mãe…

– Quem é você?

– … é a Ana, mãe…

Relaxei. E tive a audácia de dizer:

– Filha, sinto muito, não tem ninguém aqui com esse nome…

A voz desligou…

Sabia que minha menina estava guardadinha em sua casa. Tínhamos conversado algumas horas antes e nos despedimos para a noite. Mesmo assim, o coração disparado, custei a relaxar. Como se contasse carneirinhos, lembrei de todos os meus queridos. Que bom que estão todos bem. Virei para o lado, suspirei e dormi, feliz.

Malas e matulas.

A irmã mais diligente prepara tudo. Agrada a cada um dos irmãos com mimos específicos. Quando nos reunimos, uma vez por ano, é sempre uma festa boa, comemos e bebemos, comemoramos e nos fartamos de afeto e amor compartilhado.

Da última vez, a irmã diligente preparou em um dos quartos três camas de solteiro. Ali ficaríamos, Renata, uma de nossas cunhadas, e eu. A cunhada não pode ir então ficamos nós duas dividindo aquele espaço tão confortável e querido.

Ainda estava clareando quando acordei. Renata e eu começamos a conversar, assim como se nem tivesse tido seis horas de  sono depois da ultima rodada de lembranças da noite anterior. Ela estava sentada na cama do meio e eu naquela à direita. Foi quando vislumbrei um corpo na cama da esquerda… Levei um susto!  Perguntei baixinho: – Quem está dormindo ali?  Renata imediatamente olhou para trás e constatamos que eram suas malas e os mil presentes que sempre trás de fora para nosso deleite. Demos muita risada!

Seu Gastão

Papai tinha um hábito delicioso. Quando abria uma cerveja, batia com o abridor na lateral da garrafa e o liquido borbulhava lindamente lá dentro. Bater da mesma forma em minha cerveja tem o efeito de saudá-lo e ao seu encantamento. Seu riso era contido, para dentro de si mesmo e eu só ouvia um murmúrio de prazer vindo de sua garganta. Era raro, mas as vezes soltava uma sonora e plena gargalhada. Também brincava de gargalhar, virando a cabeça para trás em um inusitado relaxamento. Hoje bateu uma saudade aguda. Por isso vou tomar uma cerveja e relaxar. Tim tim, papai!

Virose

Peguei uma virose…

Febrezinha, mal estar, meio sem fome… Paciência. Deixei meu corpo reagir, que ele foi feito para isso: Reagir e interagir. Os sintomáticos de sempre: Dipirona, Tylenol; Aspirina, não! Depois de uns 5 dias, sarei! Nossa, estava ótima, super disposição, criatividade a mil. E de repente – exantema! Palavra feia essa… Enfim, miríades de bolinhas cor de rosa pelo corpo. Obsessão! Conferir cada pedacinho de pele de cinco em cinco minutos. Perebas… E aí começou a encrenca. Umas picadinhas de pernilongo, aqui e ali. Aqui, cocei. Ali, cocei. E então, como se um formigueiro  todo de lava-pés me atacasse, cocei desesperadamente inclusive minha pobre alma escondida ali perto da sexta vértebra torácica. Anti-alérgico, toalhas frias, um Bem esfregando pacientemente minhas costas quentes e empipocadas… Quando chegou a noite, na hora de ir dormir, estava exausta. Tomei um sedativo. Acordei cedo e achei que tivesse sido um sonho ruim. Dez minutos depois, uma fisgadinha aqui, outra ali e começou tudo de novo.

Bom pelo menos posso me coçar à vontade, estranho prazer que quase dói. E fico bem quietinha aqui escondida, porque ontem senti um certo desprezo das pessoas, uma certa discriminação… Ou estaria apenas complexada?