Faca amolada

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Vamos! Vamos lá! O medo de seguir adiante, aquele que está ancorado na esquina, atrás da árvore, de butuca. Difícil sair de casa, não temos mais sossego. Dez passos e a vida, dez passos e está morto… Não… Não há desespero maior que precisar roubar pra sobreviver. Pessoas que não têm nada a perder e se jogam e jogam fora sua liberdade e sua vida. Roubam a vida… e isso é normal, cotidiano. Afinal o que têm a perder?  Choram e não sentem, estes que querem sobreviver e desejam mas nem desconfiam dos prazeres dos grandes; estes que estão prontos para a prisão que significa abrigo e comida de graça, mesmo se sujeitando aos que mandam na cadeia. Estupro, roubos, morte. Mas se não têm o que perder senão a vida, arriscam. E matam. E morrem.

Onde está a polícia? Polícia? O que é polícia? Mais um bando organizado que, muitas vezes, também não tem  nada a perder…

Eu sou nova ainda…

Foi assim que ela começou a conversar comigo sobre romance e sexo. Falamos sobre a solidão compartilhada, aquela que todo mundo sente às vezes, quando certo distanciamento acontece entre pessoas que se amam e dividem seus espaços. Pode significar apenas que um está em horário de verão e o outro em pleno inverno. Ou que estão cuidando de outras pendências e se esqueceram de olhar para quem de fato amam. É bom olhar para o outro. Conferir se o amor e o desejo são os mesmos desde a última vez que estiveram realmente juntos. Porque se não houver prazer de estar com sua melhor companhia, trate de rasgar esse contrato e ir caçar. Sim, caçar! Encontrar a fera que precisa e que te alimentará para ser feliz.

Afinal somos todos tão novos ainda…

Desapegos

Quem é ele? Quem é este tal de Tato da minha cidade natal, que era do meu tempo, e que morreu prematuramente? Tantos dos meus amigos juvenis o conheceram… Onde eu estava, que não me lembro dele,  se éramos da mesma turma? Ah sim, eu já havia me despedido e mudado de cidade, eu havia de certa forma abandonado meus companheiros. Não participei com eles da efervescência política dos últimos anos da ditadura, estava envolvida com a medicina e doenças, as curas, os milagres, as perdas que não eram unicamente minhas.

Todos sentem tanto a morte do Tato, todos sentem muito, e eu nem o conheci…  Sou solidária à dor dos meus amigos, mas com certo distanciamento; vejo a dor como em um filme, emoções que podem ser combatidas com um clique do controle remoto.

Aquele que morreu tão novo ainda, colhido em plena vivacidade, foi velado na mesma sala onde velei minha mãe, onde foi velado também meu pai. Lembrei-me daquela tristeza, fechei a porta do quarto e chorei um pouco; depois fui comer um bolinho para rebater com a doçura aquela dor que nem era minha.

Depressão 2

Encontrei em meu caminho, os jardineiros com suas vassouras, enfileirados, lado a lado em uma rua por aqui. Varriam e varriam o pó, as folhas, gravetos, e pequenos insetos. Comentei que estavam muito bem assim, como se fizessem parte de um balé matinal.

O que estava bem no meio da rua, falou comigo:

– Estávamos aqui nos perguntando, por onde anda a Dona Patrícia, que sumiu, ninguém mais a vê…

Respondi:

– Mas agora estou de volta!

E ele:

– Graças a Deus!

Sobremesas

Há pessoas “Petit Gateau”, outras pessoas Brownies; as Cup Cakes e muitas mais travestidas em outros tipos de bolinhos. Sou tipo Petit Gateu, casquinha firme por fora e tão mole internamente que escorro. Meu ingrediente principal é o chocolate meio amargo.

Já meus amigos Cup Cakes são divertidos, animados e com muita cobertura colorida. Muitos deles tem uma consistência interior meio pesada, mas são tão lindos e doces por fora que a gente até esquece disso. Puro encantamento, objetos de desejo.

Os Brownies, ah os Brownies… Casquinha quebradiça delícia e por dentro macios, muito macios. São meus preferidos. Também são doces e em geral estão acompanhados por gelados e impessoais personagens. São finos, delicados, e têm alguma coisa embutida na massa que sempre surpreende. Um toque de café, castanhas, passas… Mas o que mais gosto neles é a consistência previsível e e sua característica chapada, racional. Preciso deles por perto. Acalmam, perfumam e transformam uma tarde insossa em momentos de prazer seguro e reconfortante.

Que tipo de bolinho você é?

Procrastinação

Essa gaveta; essa gaveta… Precisa de arrumação… Fios e carregadores obsoletos, pedacinhos de papel com o telefone de ninguém escrito; canetas que não funcionam, recibos do ano passado… Desencaixo a gaveta do móvel e levo até meu cantinho, sento no chão com a bagunça em frente a mim, no tapete. Mas antes de começar, vou até a cozinha buscar um refresco e me distraio conversando; então decido fazer um doce, que cheira, perfuma a casa toda. Enquanto assa, falo ao telefone, escolho uma toalha limpa e uns panos de trapo; ao toque da campainha vou atender o marcador da luz, decido acarinhar o cachorro que anda muito interessado nos novos cheiros que saem do forno. Vou caminhar um pouco, depois tomo um banho, desenformo meus bolinhos, confiro emails e mensagens, e quando me dou conta já são cinco horas! A gaveta volta desarrumada para o móvel. Mas amanhã sem falta vou dar um jeito nisso.

O tempo passa tão rápido quando estamos felizes…

A casa no meio da rua

Aquela casa era curiosa, abriam-se portas para lugar nenhum e janelas que davam para corredores escuros que remetiam a uma luz lá no fundo. Às vezes a luz se apagava por vontade própria e no breu absoluto do corredor só se podia gritar: – Tem alguém aí? A solução era ficar parado e esperar com paciência que a luz se acendesse de novo para a gente poder seguir até lá e descer por uma escada helicoidal profunda e um pouco torta. O quarto também era torto, os cantos com ferrugem e nódoas de antigas infiltrações. E o banheiro tinha duas portas e para a segurança de quem fosse usá-lo era preciso conferir as duas trancas. Entretanto uma delas invariavelmente estava quebrada em geral aquela longe do vaso, mas havia um pau de vassoura que ajudava a escorar, de longe, a porta vã. Puxadinhos por todos os lados, um viveiro de carpas em volta de toda a construção, um jardim desesperado por água; e as duas janelas da frente com suas cortinas abertas pela metade que me lembraram uma miastênica ou soberba figura.

Não sei porque  dar vida às casas… Mas é tão natural fazê-lo quanto acender a luz. A casa, com sua cabeça-telhado, suas janelas que observam, suas portas abertas que gritam e sua pintura rebocada como uma gueixa em fim de carreira.

Uma casa é vida. Mesmo que ninguém more mais nela…