A casa no meio da rua

Aquela casa era curiosa, abriam-se portas para lugar nenhum e janelas que davam para corredores escuros que remetiam a uma luz lá no fundo. Às vezes a luz se apagava por vontade própria e no breu absoluto do corredor só se podia gritar: – Tem alguém aí? A solução era ficar parado e esperar com paciência que a luz se acendesse de novo para a gente poder seguir até lá e descer por uma escada helicoidal profunda e um pouco torta. O quarto também era torto, os cantos com ferrugem e nódoas de antigas infiltrações. E o banheiro tinha duas portas e para a segurança de quem fosse usá-lo era preciso conferir as duas trancas. Entretanto uma delas invariavelmente estava quebrada em geral aquela longe do vaso, mas havia um pau de vassoura que ajudava a escorar, de longe, a porta vã. Puxadinhos por todos os lados, um viveiro de carpas em volta de toda a construção, um jardim desesperado por água; e as duas janelas da frente com suas cortinas abertas pela metade que me lembraram uma miastênica ou soberba figura.

Não sei porque  dar vida às casas… Mas é tão natural fazê-lo quanto acender a luz. A casa, com sua cabeça-telhado, suas janelas que observam, suas portas abertas que gritam e sua pintura rebocada como uma gueixa em fim de carreira.

Uma casa é vida. Mesmo que ninguém more mais nela…

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