Desapegos

Quem é ele? Quem é este tal de Tato da minha cidade natal, que era do meu tempo, e que morreu prematuramente? Tantos dos meus amigos juvenis o conheceram… Onde eu estava, que não me lembro dele,  se éramos da mesma turma? Ah sim, eu já havia me despedido e mudado de cidade, eu havia de certa forma abandonado meus companheiros. Não participei com eles da efervescência política dos últimos anos da ditadura, estava envolvida com a medicina e doenças, as curas, os milagres, as perdas que não eram unicamente minhas.

Todos sentem tanto a morte do Tato, todos sentem muito, e eu nem o conheci…  Sou solidária à dor dos meus amigos, mas com certo distanciamento; vejo a dor como em um filme, emoções que podem ser combatidas com um clique do controle remoto.

Aquele que morreu tão novo ainda, colhido em plena vivacidade, foi velado na mesma sala onde velei minha mãe, onde foi velado também meu pai. Lembrei-me daquela tristeza, fechei a porta do quarto e chorei um pouco; depois fui comer um bolinho para rebater com a doçura aquela dor que nem era minha.

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