Antes

O menino olhou a chuva pela janela e suspirou. Queria empinar seu papagaio vermelho. Queria vento e a chuva punha tudo a perder. Era domingo, depois do farto e ruidoso almoço da grande família e todos agora cochilavam pelos cantos ou já teriam ido embora. O menino foi até a cozinha onde a mãe lidava com a louça e perguntou se poderia ir até lá fora fazer um olho de sol. A mãe riu dele e disse, pode, mas não tome chuva. Ele desceu as escadas até o quintal. Procurou um pedaço de terra fofa, fincou o calcanhar e girou o corpo até completar o círculo. Tinha tanta esperança… Voltou para a sala e enquanto esperava a mandinga funcionar, montou algumas peças do grande quebra cabeça disposto em um canto, e que toda a família colaborava. Estava aborrecido. Foi para o quarto, pegou o papagaio e brincou de fazê-lo voar segurando pela haste no centro.

Era assim que se brincava antes.

Recomeçar

Um breve tremor, o tilintar na cristaleira e uma fresta de luz pela rachadura da parede da sala. Saímos todos rapidamente para a rua e observamos toda a nossa vida transformada em escombros. Depois veio a chuva, lavamos a alma; e fomos.  Começamos a construir de novo tudo o  que lembrávamos de ter perdido.

Anjo

Os anjos não são perfeitos.

Têm seus defeitos, têm marcas e nódoas.

A busca da perfeição é diabólica.

E por mais bucólica que seja a alma,

Ah, ela também tem seu carma, seu jeito desfeito de ser.

Que felicidade compreender

que os anjos são imperfeitos.

E por isso, pasmem,

é certo que eles existem!

A pródiga

A filha era pródiga, então teve que aceitar. Abriu a porta com um sorriso ensaiado e abraçou a moça, apalpando os pneuzinhos da cintura. A filha fingiu que chorava, sacudiu-se toda nos braços maternos.  Deixou a malita no quarto que fora seu antes de casar-se. Vestiu uns trapos, olhou-se no espelho e concordou: “Estou gorda mesmo…” Desceu a escada e foi até a varanda onde a mãe a aguardava deitada na espreguiçadeira. Não havia amor ali, apenas paciência e tédio. Ficaram em silêncio enquanto ninavam as próprias carnes. Dali, concluiu, ela nunca deveria ter saído…desenho29

Rolinhas na varanda

telhado varanda

 

Tenho uma varanda coberta por um telhado à vista. A estrutura de madeira suporta uma trepadeira simpática de onde afloram brincos de princesa.

Entretanto entre o madeiramento e as telhas, um casal de rolinhas construiu seu ninho; e o que a princípio me encantou, depois de algumas gerações de arrulhos e disputas transformou-se em um poleiros de obras e o piso da varanda virou uma tela de Jackson Pollok. Gosto das rolinhas; tenho várias plantas específicas para as espécies simpáticas, cuitelinhos, bem-te-vis, e sabiás; não me importo até de ter alguns mamíferos alados morando no sótão. São feinhos, mas são do bem. Imaginei que os moradores do telhado fossem embora, fazer ninho em outro lugar, mas eles adoraram a exuberância do jardim e foram ficando por aqui. Ao amanhecer as obras já estavam prontas… Lastimável. Fui atrás de uma solução ecológica, queria apenas que se mudassem para qualquer outra parte do jardim. Soube que havia um gel que espantava pássaros e fiquei animada até descobrir que o gel é um tipo de visgo e não suportei pensar na agonia e surpresa dos pequeninos presos ali, onde faziam pouso e dormiam tão bem todas as noites. Alguém entendido em dedetização – palavra forte para passarinhos que de maneira alguma são pragas, aconselhou que eu pintasse a área toda de amarelo. Fiquei surpresa e contei a novidade aos meus amigos das redes sociais.

E o Francisco falou de uma outra possibilidade, colocar papel laminado nas superfícies. Bem menos agressivo, certamente. Não tinha certeza se eles se afastavam por causa do brilho do papel (ele usou para evitar que os pássaros invadissem sua horta orgânica); ou se seria pelo desconforto de pisarem  em uma superfície desagradável. Decidi tentar. O jardineiro e eu passamos umas três horas colando faixas de papel laminado na cumeeira e nos caibros. Depois de lavar a varanda, torci para dar certo.

Na manhã seguinte fui lá cedinho. Funcionou! Havia um pequeno trabalho em uma região que não usavam antes. Bom, agora é completar o projeto para que gentilmente eles se afastem daqui. Bem aqui dentro sinto uma certa tristeza em pensar que afugentei os pequenos logo agora no inverno, em um fim de semana chuvoso e cinzento. Então lembrei da minha Helena que costuma dizer :

– Mãe, você quer ou não o resultado?