Um pé de lichia

No quintal do nosso vizinho em Uberaba, havia uma árvore folhosa, com um metro de altura a mais que o telhado do nosso barracão dos fundos.  Dava uns cachos bonitos de uma fruta de casca vermelha e rugosa, quase espinhenta, que aos poucos ia perdendo o brilho e caía já madura no nosso pátio. Achávamos engraçado jogar uns nos outros aquela bolota rústica e firme. “Acertei você, está morto!” dizíamos triunfantes.  Quando a fruta amadurecia,  a casca ficava ressecada e com uma cor terrosa, que só de apertar  se soltava. Então, descobríamos a polpa firme, translúcida, diáfana, brilhante. O cheiro nada dizia, mas a consistência tentava muito e um dia provamos. Primeiro com a língua e depois mordendo com luxúria até chegar ao caroço, os sucos escorrendo pelo queixo. Delícia! Pura suculência e doçura. Depois dessa descoberta  quando o pé ficava carregadinho, subíamos sobre o telhado com  uma escada apoiada no muro, para garimpar algumas e provar outra vez. Descobrimos que a fruta com a casca muito vermelha ainda estava verde e apertava na boca; o jeito era esperar madurar, e a casca ficar marrom e quebradiça. Foi um dos primeiros ensinamentos da vida para domar minha ansiedade, muito antes de eu mesma virar fruta madura. Entretanto, havia um perigo. Eu só podia comer duas, mais que isso e sofreria uns três dias com uma dor de cabeça do capeta. Foi com a lichia também que comecei a aprender sobre satisfação, saciedade e moderação. Quando criança a lichia tinha gosto de fruto proibido, roubado. Nem sabíamos seu nome. Agora posso comprar em qualquer bom supermercado. Escolho as melhores, sei quais estão maduras; mas compro somente duas.

Flocos de nuvens

Um dia, qualquer dia, vou precisar apagar as nuvens e fechar as janelas, contra as chuvas e o vento. Mas antes, valerá a pena descobrir carneiros e cavalinhos nos flocos brancos e cinzentos. E depois, que o vento se encarregue de levar para longe os bichos que imagino, porque estarei guardada aqui dentro de casa, protegida e bem amada.

Um dia, qualquer dia, quando eu finalmente sair da toca para constatar o fim do inverno, verão que ontem não foi à toa, foi mágica, foi pura mágica.

Não esmoreça!

Eu estava entre eles, no meio da roda, no centro da roda viva da vida. De um lado ele gritava: – Vai! Do outro ela gritava: – Sai!  Perdida, decidi ir em frente, nem para um, nem para a outra. E caí, fui caindo, caindo… No meio da queda me lembrei de que poderia ter olhado para trás, de onde tinha vindo, antes de ser capturada dentro do círculo. Mas era tarde, não adiantava mais…  Esmoreci!

O broto

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Mesmo o inverno tem momentos vermelhos, o brilho, o fogo, paixões, sobrenomes famosos. Quando acaba o frio, os pontos de fogo  que se espalharam,  condenam as plantações à palha seca.

Mas isso não tem importância. Deixe estar, tudo brotará.

As artes e a medicina

Entrei na FMTM (Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro) bem novinha e fiz os dois primeiros anos lá; as ciências básicas. Daí decidi casar e mudar para São Paulo. Mamãe pediu: “Termine sua faculdade antes, minha filha”. Mas eu queria casar e mudar. E prometi a ela que terminaria a faculdade de medicina, sim. Fiz um ano de cursinho no famoso Objetivo e entrei na FMUSP; que beleza, não? Consegui eliminar algumas matérias e segui em frente. Depois dos percalços do internato – plantões, perdas, emoções intensas – estava formada! Mas nesses anos todos meu coração estava nas artes, qualquer arte. Apesar de saber que só receberia o diploma alguns meses depois, lá fui eu para a cerimônia de formatura, desconfortável em meu traje formal. Depois, levei o canudo até minha mãe. Ela me abraçou amorosa e eu entreguei a ela o tubo, com orgulho: “Aqui está, mamãe”!  Ela abriu, olhou lá dentro e exclamou:

– Mas está vazio!

Pois é…

Desmazelo

Restou um cachorro velho, em uma casa velha jogada às traças que o tempo trás. Restaram as mentiras, os desmazelos, a tristeza infinita… E também uma lanterna sem luz, afogada em mágoas, a água parada nos mangues;  os mosquitos, os mosquitos… E depois a febre, a dengue e a pobreza. De onde tinha vindo aquela força toda que ficou tão pálida depois da ventania? Ninguém soube informar. Mas a solução talvez fosse criar, recriar; e remoçar. Lutar e lutar. E sobreviver…

Mas precisa?

Batatas ao murro

Tenho acompanhado a Rita Lobo e adoro o programa dela. Ela ensina tanto e de maneira tão didática que a gente aprende só de ouvi-la falar. Bom, encontrei no índice do livro, uma receita portuguesa, intrigante: Batatas ao murro. “Deve ser um ingrediente novo ou desconhecido para mim”, pensei. Que nada, era murro mesmo, porrada na batata cozida. As fotos lindas com as batatas machucadas cobertas com azeite e alecrim, me levaram para a cozinha. Caprichei. Quatro batatões que cozinhei em bastante água. Esperei esfriar, mas não muito. Estava doida para atacar! Coloquei uma delas bem no meio da tábua de bambu e com a lateral da mão fechada mandei bala! Voou batata para todo lado. Até meu cabelo tinha fragmentos cozidos e quentes. A lateral da mão ficou bem vermelhinha e ardendo. A batata venceu o embate. Depois de limpar tudo, saí da cozinha, fui fazer outra coisa qualquer. Uma meia hora depois, voltei e esmurrei as outras batatas com cautela e quase com carinho. Ficaram perfeitas. Cobri com o azeite, sal e alecrim e coloquei no forno para dourar. É claro que a batata destroçada coube a mim. Bem feito!