De flictênula à mucharinga

No quarto, havia uma estante cheia de livros, último reduto disponível da casa para aqueles dois amantes; e de livros. E assim como todas as outras estantes do apartamento de dois quartos e sala ampla, estava abarrotada, quase destroncada de literatura. Era o início dos anos 1980. E-books? Só em filmes. Internet? Ainda não…

Era sábado à tarde, verão paulistano, o rádio seguia entre boas músicas e a  narração os páreos do Jockei Club; os dois turbulentos em seu amor vespertino; “e cruuuuzam a linha de chegada!”

Relaxados, descansavam, quando ela leu da cama o que primeiro enxergou na estante, de um dos cinco volumes de um Aurélio; a primeira e a última palavra daquele tomo:

-Flictênula  Mucharinga!

Safa-se!

Mistérios nos hemisférios… A cabeça pulsa, padece, pororoca… Sai de mim, praga maldita, não fique aí conversando, versejando, reverberando.

Ela diz, faz uma tomografia, eu digo, são gases, ela diz, não é ressaca…, eu digo, só bebendo para atrelar a dor e o sentido de dor. Ok! Agora tudo é mistério…

Era a falta da bebida, a falta da ressaca. Bólides bêbados atravessam a escuridão. E vão matar jornalistas, que nem bebem nem nada, apenas vivem.

Preciso RE LA XAR …

Vamos respirar profundamente… vamos ao mar, aos mistérios do mar…

Para lá e para cá, a rede, a teia, a aranha. Adormecer, dormir…

Amanhã será outro dia… tenso… borboletas no ouvido… Dor, dor, dor…

Safa-se!

Ah, Elvira!

Como você é vaidosa, Elvira, sempre que vê um espelho, arruma os cachos dourados. Ao sair para caminhar, passa protetor e batom, ajeita o chapéu de palha e vai! Cinema? Se veste de colorido, echarpe sobre os ombros, felicidade pura. E quando é festa? Se anima e se produz, radiante e bela, a prosa afinada, o sorriso largo… Aproveita, Elvira, que a vida passa num trisco, e depois, a vaidade e o batom serão só lembranças.

Em pauta, a meta

Nestes tempos botinudos, de roubadas e mistérios,  tratei de reduzir despesas. Fui devagar aqui e ali, deixando apenas o que realmente precisava. Desliguei uma geladeira extra, meio detonada, e barulhenta, mas muito útil para guardar os legumes em excesso, e potes perigosos de sorvete e cervejas tentadoras, que ficavam lá esperando sua vez. Está lá coitada, bocas abertas, quente, febril, vazia e sem dar um pio… Triste… Resolvi também tirar das tomadas todos os aparelhos em stand by. Só ficou uma conexão com a internet e um rádio de pilha. E claro a geladeira principal, atolada com as provisões da semana. Por umas duas horas tive a impressão de solidão mais aguda dos últimos tempos. Tudo silencioso, sem luzinhas a me olharem de longe, uma cegueira e surdez absoluta. Acho que os aparelhos em stand by, nos observam no escuro. Interconectam-se e comentam sobre nossas celulites e  nossas insônias. Devem estar irritados com a falta de cerimônia com que os tirei da pauta. Está bem, desculpem aparelhos. É que tenho uma meta a seguir.

Partida

É cedo ainda, não vá embora. Sabia que a Cristina está de caso com o Alaor? Lembra que ela era a mais espevitada de todas? Demos tanta risada falando dela antes, por que não agora que estamos maduras e continuamos amigas? Venha para a cozinha, sente aqui ao meu lado, vamos tomar um café. Você ainda gosta de buganvílias? Atualmente prefiro as brancas, em geral tenho preferido as flores brancas… É paz que eu preciso e você? Quer paixão, vitalidade, força? Encontre a sua cor e vamos colorir minhas flores com seus tons. Não, não vá embora ainda, vamos ao cinema juntas? Compraremos pipocas brancas, coloridas com caramelo tingido de rosa, lembra? Quando meninas nos lambuzávamos ao comer pipoca doce que vinha em sólidos quadrados… Agora elas vêm soltinhas, uma pena… Converse comigo, não fique triste, não vá embora, por favor?

Está bem se tem que ir… Mas já começo a sentir muita saudade.

O que não tem mais jeito

Quando ele disse que não se lembrava, a casca de ovo craquelou e partiu-se. Ele não se lembrava de nada, e sua expressão sombria e seu desalento; e rugas na testa, confirmavam. Desde então, ela está insegura, “talvez não tenha acontecido mesmo”… Ela também franze a testa, tinha tanta certeza, mas agora… Tinha sido um sonho. O sonho de sua vida. E a casca havia se partido muito antes do tempo.

Burburinho

Achei aquilo muito esquisito… Às sete horas da matina, fui caminhar no condomínio das corujinhas, que fica ao lado de onde moro e que normalmente só tem as corujas enfezadas e seus ninhos -buracos. Havia tanta gente que imaginei algum incidente grave, com vítimas. Um quero-quero passou raspando o chão, gritando impropérios. Vi um bombeiro de farda vermelha e aticei meus alarmes. Mas, em seguida vi três ônibus  parados em frente à entrada  e gente sentada no passeio ao lado conversando, com lanchinhos e crachás. Relaxei; “deve ser alguma excursão”. Na outra rua, muito mais gente ainda. Até que vi as câmaras, os refletores de luz, maquiadores e seus apetrechos vistosos, os figurantes no passeio se alvoroçando;   a diva chegava, pronta pra malhação. Gravação de novela…