Ai, que doriii.

Ai, que doriiiii, gritava o pobrezinho, ai que doriiii. Eu não sabia a quem consolar se a ele ou a mim; eu dizia aflita; vai passar, vai passar; e ele, ele nem me escutava; lá de dentro de seu casulo de dor, ele gemia. Tínhamos feito de tudo… sua dor era terminal, era só esperar passar, uma questão de minutos… Por fim ele morreu, não gemia mais, nem respirava.

Eu continuo viva e bem dentro do meu casulo, ainda escuto seu lamento:

Ai, que doriii.

Excerto

…o prédio da escola de medicina, que me permitiu aprender, e onde aprendo ainda; me ensinou tanto por tantos benditos anos, a dureza da urgência, a tristeza da morte anunciada, o langor dos insuficientes renais; as dores do parto, os bebês e seu choro miúdo, seus reflexos de sucção ancestrais, o monitor que se recusa a demonstrar emoções, sua linha reta, seu apito reto, reta é a morte e seus desígnios…

A busca

Nos tempos passados, nos despedíamos dos colegas com um “boa noite”, ou um “até amanhã”. O dia seguinte era mesmo o dia seguinte. Quando as férias chegavam, sumíamos uns dos outros, um mês ou dois, ou três… Na volta à escola, depois do carnaval, acontecia de não revermos alguns, aqueles que mudaram de colégio, ou de cidade, ou de país; enfim, de vida. Naqueles casos, a separação era  para sempre.

Trinta anos depois, ou mais, às vezes me lembro de alguns destes que perdi de vista. É certo que ao envelhecer a gente se lembre melhor dos fatos passados. Quando estou escrevendo, e alguma reminiscência ativa a imagem da Cláudia, por exemplo, paro de escrever e começo a pensar: Onde andará a Cláudia? E a Soninha? E o Bueno? De chofre, miríades de memórias brilham, não sei se é saudade, ou mania de olhar para trás, porque o atrás é mais extenso do que o que me aguarda pela frente. Talvez tenha a ver com já saber de minha história passada. Isso me dá segurança, nada vai mudar, sei o que esperar de minhas lembranças, ou não as lembraria.

Hoje é possível procurar pelo nome das pessoas nas redes sociais; se a gente se recorda do nome completo, tem muita chance de encontrar alguma notícia. Ou muitas. Será que estão bem? Ou velhas; mas não estamos todos? Foram felizes, são, ou estão prestes a serem avós?

Assim, pensando em uns e outros, vou tecendo novas cadeias de histórias e crio as tramas dos próximos textos. Só preciso daquele piscar de luz para criar uma pessoa inteira, uma saga inteira. Não preciso de redes sociais…

Mas mesmo assim, ainda procuro, e procuro e procuro…