Estupro

Esperava minha condução quando senti uns dedos fortes em torno do meu braço que me encaminharam em direção ao parque ao lado, cheio de mato. Imaginei que fosse alguém conhecido, um dos meus netos que sempre me prega peças, mas não, era um estranho.  Violento, agressivo, macilento, suado, cheirava mal. Acertou-me dois socos no rosto e eu caí desacordada. Quando dei por mim, ele havia erguido minha saia, abaixado minha calcinha e bufava meio mole tentando se satisfazer. Eu sentia dor, deveria ter continuado a usar os hormônios, mas aos oitenta, viúva, para quê? Para quem?  Depois ele se levantou escondendo suas vergonhas murchas e chutou minha coxa várias vezes, em um ataque de fúria. Fiquei quieta esperando pelo pior, achei que fosse me matar. Ele catou o boné vermelho no chão e foi embora pelo mato. Respirei fundo, sentei-me, a principio testando os ossos; então subi minha calcinha que estava presa em uma das pernas; apoiei com as duas mãos no chão e me levantei. Minha saia, atrás, estava suja de sangue e terra.  Bati com as palmas para tirar o pó e as folhas. Me ajeitei como pude e caminhei devagar. Minha bolsa estava jogada ao lado, o batonzinho hidratante e a carteira de identidade no meio da terra. Foi  o que restou. Fechei o zíper, catei uma moedinhas do casaco e fui até o ponto de ônibus, esperar pelo próximo e enfim começar meu dia.

Dois pares

Saiu muito cedo, depois de se preparar para o trabalho em silêncio, para não acordar sua mulher que dormia profundamente. Nem a luz do abajur ele acendeu… Só quando chegou ao escritório notou que havia colocado um pé de cada sapato. Essa mania que tinha de sempre comprar dois pares iguais quando gostava muito. As diferenças eram sutis, um deles um pouco mais desgastado, o cadarço de tons ligeiramente diferentes. Mas ele sabia. Os pés dentro dos sapatos e todo o resto do mundo nem imaginavam.

Ah, o prazer…

Na hora do abraço, senti o cheiro. Tênue, leve, recente… Respirei fundo. Era bom. Lembranças de outras épocas, dos encontros com amigos; muitas festas alegres, sem o preconceito, que atualmente sufoca, nem dá pra deixar correr frouxo o fluxo do pensamento. Tudo esbarra no politicamente incorreto, difícil usar as palavras; mesmo as do dia a dia, têm sentidos diversos. (Melhor pular na piscina, em um mergulho gelado, relaxante e introvertido). Lembrei-me também das noites de plantão no pronto socorro, madrugadas inteiras convivendo com o cheiro, naquela época muito mais constante, livre até mesmo nos corredores do hospital. Tempos de excessos sim, tempos de vícios alagados de prazer. Lembrei das noites de insônia, nas madrugadas frias, sem internet e sem “boa noite cinderela”, quando andava de um lado para outro, procurando paz e conforto nos vícios novos.

Quando senti o cheiro, e inúmeras imagens se atropelaram em meio à fumaça, eu tive vontade. Quisera poder sentir este prazer só às vezes, sem a escravidão da abstinência. Ah, o prazer, que prazer. Que boa reminiscência. Mas este vício está morto para mim. Nunca mais. Nunca mais…