Meu rio

O meu rio não é o Doce, o meu rio é o Grande. Ele divide estados: sólido, líquido, gasoso; estados de ânimo todos; e Minas, de São Paulo. Foi ali que vivi um grande amor não correspondido, que até hoje me dói. E foi em suas margens que conheci a felicidade, a esperança e a transcendência da vida. O meu rio é Grande, muito grande. E é ali que quero estar, entre os seixos e os peixinhos.

Meditar

Estava sentado no meio da maca, na confusão e burburinho do pronto socorro, em posição de lótus. Meditava para sublimar a dor; para dentro, para fora; inspira, expira. Mas aquela dor era transcendente. Era a dor definitiva. Era a última.

 

Abissal

A bola branca correu sozinha por toda a mesa de sinuca, ricocheteando nas bordas, aqui e ali, sem jamais atingir uma caçapa. Traçou linhas virtuais por toda a parte, e as linhas se esmaeceram rapidamente, nada mais havia. A bola foi perdendo sua velocidade e por fim parou bem na borda da caçapa do vértice direito. Ela olhava, inexoravelmente, para seu abismo.

Pedras portuguesas

Olhava para trás quando não ouvia passos, mesmo assim revirava o pescoço, os olhos em viés. Esperava por algum alento vindo não se sabia de onde, nem se sabia quando. Andava pela trilha, e ia descalça a sentir as pontas das pedras portuguesas, a ferir seus humores com a crueza das pedras, tantas delas pelo caminho, mas caminhava, ia em frente, mesmo assim. E de quando em quando, olhava para trás.

Meteorito

Semana passada, um meteorito iluminou meu céu, nosso paradeiro. Ouvimos um silvo, a princípio, cigarras no jardim, mas o som aumentou progressiva e rapidamente, até que nos levantamos do sofá com medo; o que é isso? O que foi aquilo? No quintal uma bola de fogo explodira nas águas da piscina, e borbulhas incandescentes maravilharam nossos abismados olhos. Arrepiamos… O cão latiu arrepiado também; ele tinha medo. Quando tudo acabou, compreendemos. Nada mais seria o mesmo. Nunca mais.

Diálogo sobre a morte


Tia, minha mãe vai morrer?

Todo mundo morre um dia…

Mas, a minha mãe, ela vai morrer?

Tudo que é vivo morre… A planta, a formiguinha, as pessoas todas…

Mas a minha mãe não, ela não, vai viver para sempre, não é?

Ela vai viver até… ficar bem velhinha, está bem?

E depois?

Depois ela morre…

Buááááááááá!!!!!

Olha só, sua mãe vai viver enquanto você viver!

( Cá entre nós, esta é uma grande verdade…)