Mercúrio

A notícia de que o planeta Mercúrio estará retrógrado em alguns momentos deste ano, lembrou-me das gotas de mercúrio espalhadas pelo berço de minha filha em uma manhã de febre. Lembro-me de que a peguei nos braços e vi as gotas se dividirem e se divertirem pelas dobras do lençol, umas criancinhas tolas e brilhantes, de assustadora vivacidade para a mãe de primeira viagem, que tudo temia. Teria uma gotinha entrado em seu ouvido? Ela me envolveu em seu abraço ainda miúdo e terno. Nenhum mercúrio orbitava a nossa volta naqueles tempos. Tudo era paz.

Pés no chão

Gosto de ter os pés no chão.
Os pés de verdade, porque os pés da cabeça voam longe…
Muitas vezes ia até a venda da esquina descalça, comprar um pirulito.
Quando voltava, minha mãe, da janela da sala, dizia, seca:
– Vai pisar em um escarro…
Era ela dizer e eu como que pisava em asfalto incandescente. Corria pra dentro, lavava os pés, com nojo, calçava uns chinelos e me prometia; nunca mais.
Minha mãe era dura.
Ainda é.

Incontinência

Meu namorado me disse, certa vez, que sofro de incontinência onírica… Verdade…

O que me separa do inconsciente é uma membrana fina e porosa, quase nada mesmo, muito permeável, até mesmo quando estou bem acordada.

Um dia decidi dar um jeito. Peguei um desses compensados pintados de rosa choque de material de construção, que estava jogado por aí, um monte de pregos que enfiei na boca e um martelo bem balanceado. Preguei sobre a membrana em intervalos de um centímetro, caprichosamente, até ver tudo bem firme e desgraçadamente opaco. Tudo bem, ia acabar. A boca vazia, suspirei, ufa!

Ainda hoje, às vezes, algum sonho escapa e eu trato feito cachorro bravo:

– Senta!

– Deita!

– Fica!

E mesmo assim acontece de um mais atrevido fugir ao comando, chegar ao banheiro, roubar papel do lixinho e fazer uma grande bagunça pela casa!

 

Gambá

O moço chegou com a malita e uns canos de cobre, subiu ao telhado e passou umas horas por lá, às voltas com a caixa d’agua; depois desceu; disse: – amanhã volto, faltou um pedaço. Não veio; lá de cima uns ruídos estranhos, portas, batentes, uivos, alguém para trás? Subi, tudo escancarado, as portas todas abertas, a claraboia inclusive, pensei, entraram, uns ratos, baratas, morcegos, meu deus, uns gambás? Arrepiei, fui fechando, espera, fechava tudo ou deixava passagem? Travei, desci. Busquei café e matutava, olhava pra cima. Prendo o gambá até o moço… Subi e fechei a claraboia. Fechei a última porta. O moço que se vire. Com o gambá e o cano que falta.