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Vou parar de tomar esses remédios…

Não vai, não!

Vou sim, mas do jeito certo: Diminuindo bem devagarinho…

Por favor, não pare!

Mas eu nem sei como sou sem todas essas drogas!!!

Eu sei….

Distração

Fui comer, não tinha pão. Fui pescar, e nada. Então catei umas folhinhas tenras no quintal, para distrair o queixo e apaziguar o oco. Parece que eram do oculto. Fiquei distraída, batendo os cantos dos ossos nos cantos da mobília. E nesse frio… Desisti por um tempo, fui para baixo do edredom. E ali no quentinho, comecei a maquinar umas ideias… E por encanto fiquei saciada. O frio também distrai.

Cisma

Cismou que podia ser feliz. E era… Boquiaberto, no susto das lambadas da vida, insistia. Era abusado, pouco reflexivo, quase avoado; achava que se não desse importância nada teria importância.

Quando a última lambada veio e ele caiu, desencantado, no fundo, ainda acreditava, que se não era mais feliz, pelo menos tinha sido.

Botões de camisas velhas

Todo mundo tem um cantinho de guardar objetos inúteis; mas caros… Uma caixinha, uma cesta de vime, uma gaveta do armário, um baú… Eu tenho uma caixa, que enfio em outras caixas maiores, junto com todas as outras tranqueiras inúteis… mas caras ao coração.

Estou em um momento “fazer mandalas” e estou usando papéis, tintas jurássicas – muitas secas nos tubos (que aproveito para ir descartando, antes que me venha outro momento nostálgico).  O meu senso estético implora por mandalas assimétricas, tudo é possível quando viajo nas tintas e desenhos.

Pensei em usar pregos enferrujados e fazer uma mandala baseada em martelo. Também me ocorreram mandalas de galhos secos, de gotas de cola, de papel marche…  Aproveitei que queria criar sem gastar muito enquanto experimento, e recorri a minha gaveta de perdidos. Achei muitos botões, oba! Botões de camisas velhas, que insisto em colecionar – os tecidos viram colchas de retalhos –  e que ficam ali com seus dois olhinhos vazados desejando sair finalmente do armário.

Pois bem, vou fazer uma mandala em mdf, com botões e tinta vitral; depois das dez outras mandalas que já imaginei. Assim vou me distraindo, fazendo coisas, matando o tempo, enquanto o tempo passa, inexoravelmente…

 

Boas lembranças

Estavam todas em um baú, adormecidas depois de tantos outros grupos e amigos durante a vida. Um dia fui limpar o sótão e achei a velha caixa de Pandora. Abri, e de lá saíram tantas meninas, doze, treze anos; elas se misturavam um pouco na neblina da memória, mas foi clareando e seus rostos ficaram visíveis, são inesquecíveis. Em uma época com hormônios em profusão, a vida estava apenas começando; e eu já me perguntava o que seria de mim, com medo de viver. Foi um tempo urgente,  saias enroladas na cintura para mostrar as pernas jovens, o coração pelejando em um misto de coragem e ousadias. O mais importante para mim, agora que voltei a revê-las, na maturidade, é que não me recordo de desafetos, brigas, diferenças. Apenas que era bom! Muito bom!

O trânsito

Para aquela hora do dia, o trânsito estava um inferno. Cada vez que o sinal abria, dois ou três carros passavam. Impaciente e dramática, logo pensei em um acidente, um engavetamento, no mínimo, um motoqueiro caído?  Meu Deus, uma blitz? Um assalto? Mais uma vítima do BRT?  E viajei, enquanto esperava minha vez. Quando entrei na avenida havia apenas uma pista das duas habituais. A pista da esquerda fechada; onde foi o acidente? Quando finalmente compreendi, tive uma esperança na humanidade. Estavam plantando árvores!