Eis aí meu carnaval

Vi, de relance, em um espelho ocasional, um palhaço. Era o Bozo. Sorri sem graça e ele me devolveu uma sonora gargalhada. Apreensiva, desisti da fantasia e dos confetes.

Quando cheguei em casa, em frente ao meu espelho habitual, retirei toda a maquiagem e lavei o rosto com capricho, mas sem entusiasmo. Deixei que jorrasse a preciosa água nesta minha ostentosa ablução. Enxuguei cada prega do rosto, estiquei as rugas e sequei meus olhos.

E me encarei no espelho.

Bozo estava lá e desta vez me olhava contrariado, o batom manchando parte da bochecha direita. Ele me disse assim:

– Vamos parar com essa palhaçada?

Ira

O pai mantinha as duas mãos apoiadas na cabeça do menino, enquanto se protegia dos socos que a criança furiosa tentava lhe acertar. Os dois tinham acabado de sair do gabinete da diretora, que o chamara para explicar que seu filho passara as últimas três aulas aos prantos. Durante a aula de matemática, ao ser convidado para resolver um problema na lousa, George tropeçara e se espatifara no chão em frente dos colegas. Foi uma risada geral!  Ele levantou-se e ainda mancava quando foi levado até à diretoria porque não conseguia controlar a raiva e a agitação por ter servido de “palhaço” aos colegas.

Na volta para casa, depois de muito trabalho para confortar o menino, o pai pensava que talvez George não soubesse resolver o problema proposto na lousa. Aflito com a perspectiva de errar, sem querer tropeçou e a gargalhada da turma tornou possível transferir a raiva de si mesmo aos seus companheiros.